“Não somos todos iguais”.

Para reforçar este pensamento e sua importância para o combate ao racismo nos espaços de educação frequentados pelas crianças, convidamos a pesquisadora Ana Cristina Juvenal da Cruz para conversar sobre os caminhos de uma educação que olhe para as questões étnico raciais. Ana é docente da UFSCar ( Universidade Federal de São Carlos) no Departamento de Teorias e Práticas Pedagógicas atuando no Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e no Grupo de Estudos sobre a Criança, a Infância e a Educação Infantil. “É preciso nos engajarmos na luta política para oferecer uma educação às crianças e jovens em que ensinemos a não sentirem vergonha e nem sofrerem por ter no corpo a pele negra”, defende ela.

Luciana explicou ao Catraquinha, porque em sua opinião, as expressões “somos todos iguais” ou “somos todos da raça humana” ocupam funções nocivas no debate. “Em primeiro lugar, por se constituírem como expressões seguras que podem fazer parecer que ao dizê-las estamos nos assegurando em algo certo como o que nos caracteriza como humanos e, em segundo lugar, por levarem ao silenciamento do debate”.

“A população negra não é tratada de forma igualitária. Basta olhar os índices de acesso à educação, saúde e outros serviços públicos, que não ocorreu de forma igualitária para todos os grupos étnicos e raciais. No caso das crianças é importante reconhecer que elas enxergam sim as diferenças e que sabem verbalizá-las. Muitas pesquisas apontam que a maior parte das primeiras experiências de racismo ocorrem no espaço da escola e da educação infantil.  Precisamos saber que não há problema em ser diferente, as pessoas são diferentes umas das outras, temos tamanho, cabelos e cores de pele diferente e que isso não deve ser um problema, as diferenças devem ser valorizadas.  O impacto sobre a construção identitária das crianças e jovens negros é distorcido causando efeitos danosos na maneira como eles se relacionam em relação a sua pertença étnico-racial”.

"Eu sou nascida e criada no Bairro de São Mateus, periferia da zona leste de São Paulo, estudei em escola pública e fui para um curso pré-vestibular para estudantes negros".

Créditos: Youtube

"Eu sou nascida e criada no Bairro de São Mateus, periferia da zona leste de São Paulo, estudei em escola pública e fui para um curso pré-vestibular para estudantes negros".

Veja a entrevista completa:

Catraquinha: No Brasil, a lei 10.639/03 obrigada o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio. Como garantir a aplicação da lei e estimular que a infância esteja conectada com sua cultura e suas raízes?  

Ana Cristina: A temática das relações étnico-raciais deve ser construída organicamente na escola, não basta deixar que o tema apareça apenas em datas comemorativas, festas e eventos em que as comidas da cozinha africana e afro-brasileira são interessantes, mas não podem ser a centralidade da prática pedagógica. O trabalho sobre as relações étnico-raciais deve estar presente no planejamento do ano letivo da escola, deve estar relacionado entre as áreas de conhecimento. Quando lemos histórias para as crianças quantas delas têm personagens negros? As políticas voltadas à elaboração de materiais didáticos específicos e o desenvolvimento de cursos de formação voltados ao tema são muito positivos e devem ser estimulados. Os professores devem ser motivados a participar desses cursos de formação e devem compartilhar os debates nas reuniões pedagógicas da escola. Estar atento às legislações sobre a educação das relações étnico-raciais também é essencial é fundamental que o racismo seja denunciado.

Catraquinha: Gostaria que você comentasse sobre caminhos para mediar conflitos envolvendo questões de raça entre as crianças tanto na família quanto na escola.

Ana Cristina : No que se refere às relações étnico-raciais as professoras e professores não podem ensinar sobre a história dos povos africanos e da diáspora negra sem compreender as experiências vividas por estes grupos.

Não se pode do mesmo modo, ignorar a estrutura e funcionalidade do racismo brasileiro e de sua perpetuação no ambiente escolar, tal postura exige que tenhamos uma compreensão da importância de considerar também as experiências individuais que os alunos trazem para a escola. Pesquisas apontam que as piadas, brincadeiras e apelidos pejorativos de cunho racial são ao lado dos xingamentos expressos por causa da cor da pele, os casos de racismo mais presentes no ambiente escolar de acordo com depoimentos de estudantes. O papel da professora e do professor é fundamental nesse processo. Infelizmente, casos de racismo ainda ocorrem em salas de aula em que muitas vezes o professor se cala diante do ocorrido.  Devemos aprender a identificar esse esse tipo de racismo e nos questionar, seja como cidadãos ou professores: 'o que fazemos quando vemos entre as crianças e jovens piadas e expressões racistas?'

A atitude deve ser imediata, não se deve permitir atos racistas na escola! Silenciar-se diante de uma brincadeira racista é uma escolha que reflete não apenas a comprovação de um total despreparo para a prática docente, mas sobretudo mostra uma conivência com o racismo, o que é intolerável.

Catraquinha: É evidente que o racismo tem impactos significativos no abandono escolar. Você pode citar boas práticas de escolas e comunidades que conseguiram diminuir esses números?

Ana Cristina: Primeiramente é fundamental que todos que habitam o espaço escolar estejam atentos às especificidades do racismo brasileiro. As professoras e professores precisam compreender o contexto da escola em que trabalham e os alunos que atendem. A escola pode ser construída como um espaço onde a comunidade em seu entorno possa frequentar, verificar a possibilidade de que pessoas da comunidade convivam na escola para falar do racismo pode ser estimulante para os estudantes. O baixo rendimento é reflexo direto de um racismo estrutural no interior da escola.

Uma escola e um professor que não valoriza o pertencimento étnico-racial dos estudantes cria um desinteresse pela educação.

Algumas pesquisas apontam que quando uma criança negra vai mal na escola o professor a abandona deixando de ensiná-la mais rapidamente do que a uma criança branca, ou seja, há uma baixa expectativa em relação a criança negra. Como recursos de trabalho os professores podem selecionar temas específicos a partir da produção cultural das populações negras. Os professores podem utilizar contos, músicas e outras expressões culturais africanas e afro-brasileiras e relacionar as produções com o que as crianças e jovens gostam de ler e ouvir. A produção literária sempre foi um caminho de expressão intelectual do pensamento, luta e resistência da população negra. As trocas culturais entre escritoras e escritores tanto africanos como brasileiros trazem especificidades a ambas as produções. O professor pode ainda incentivar os alunos e expor suas produções culturais. É preciso construir em nossa prática elementos criativos que possam valorizar as diferenças, podemos utilizá-las como ponto de partida para efetivar uma educação que contemple as relações étnico-raciais.

"É preciso ter em conta que a escola brasileira é parte de uma história secular de uma sociedade em que as diferenças são pouco valorizadas"

Créditos: shutterstock

"É preciso ter em conta que a escola brasileira é parte de uma história secular de uma sociedade em que as diferenças são pouco valorizadas"

Catraquinha: Além do abandono escolar, quais outros prejuízos têm as crianças que sofrem situações de racismo?

Ana Cristina: Inicialmente os docentes devem saber identificar as práticas que expressam estereótipos, preconceitos e discriminações, isto está diretamente associado com a criação de metodologias de trabalho pautadas na erradicação do racismo. Este tem sido um dos maiores desafios que encontramos no campo da formação docente em educação das relações étnico-raciais. Nas oportunidades que temos de trabalhar com docentes sobre essa temática, percebemos que entre as maiores dificuldades se destaca a questão de como trabalhar a temática. Fundamentalmente, é preciso uma postura política de enfrentamento do racismo, não há como escapar do conflito não basta apenas reconhecer a existência do racismo, mas se dedicar para compreender sua complexidade como estruturante das relações sociais. Outra medida essencial é a quebra dos estereótipos que os professores possuem. Uma das questões mais complexas em torno das relações étnico-raciais nas escolas e espaços de educação infantil se refere à religiosidade. Muitas crianças e jovens pertencentes às religiões de matriz africana são alvo constante de perseguição e ataques tanto de colegas quanto de professores. Suas crenças são desqualificadas em relação a outras e isto tem criado conflitos sérios. É essencial que todos que possuem uma religiosidade possam vivê-la de forma plena, essa condição é fundamental para qualquer relação respeitosa.

A maneira como nos referimos às crianças e jovens negros é também fundamental. Apelidos e modos de referenciar as crianças pela cor da pele, pelo tipo de cabelo ou pelo tipo de corpo é um comportamento inadmissível para qualquer profissional. Estabelecer diferenciações entre as crianças também é danoso. É preciso estar atento às falas e atitudes.

Catraquinha: Como a mídia, a publicidade, a comunicação podem contribuir para a mudança deste cenário e ao mesmo tempo, como pode ser danoso?

Ana Cristina: As brincadeiras e piadas de cunho racista são um modo de expressão do racismo brasileiro. A crença da existência de um “racismo à brasileira” pode ser caracterizada pela ideia propagada de que o racismo no Brasil se manifesta de forma “sutil e velada”.  Essas expressões nos ensinam a naturalizar e sermos cotidianamente racistas. No caso da sociedade brasileira, esse processo é possível de ser compreendido ao analisarmos nosso histórico marcado pelas experiências da escravidão negra que imprimiram uma marca racial em nossas relações sociais.

 A piada ao ser colocada no lugar do “Ah, é só uma brincadeira” pretende retirar do momento a sua carga racista, pois o ecoar do som da risada forja um ambiente desarmado deixando apenas para aquele que se sente ofendido, aquele que não participa do riso, a marca de uma “pessoa que não tem senso de humor”.

As maneiras pelas quais as imagens racistas estão presentes em filmes, músicas e em imagens intensamente veiculadas pela televisão e mídia em geral estão a serviço do racismo é elucidativa dos efeitos desastrosos na vida de crianças e jovens negros, que muitas vezes se submetem a mudar seu corpo para escapar desse lugar inferiorizado. A denúncia em relação à veiculação dessas imagens que tem sido colocada no lugar da ‘ditadura do politicamente correto’ tão em voga ultimamente e que tem se tornado sinônimo daquele “que não tem sem senso de humor”. Esse qualificativo de ‘politicamente correto’ desvia o tema, pois ele inscreve o racismo como algo pessoal o que desqualifica o debate e impede a possibilidade de verificar que as brincadeiras e piadas de cunho racial são parte do racismo estrutural da sociedade brasileira, de modo que atinge a todas as pessoas. Pesquisas apontam que as piadas, brincadeiras e apelidos pejorativos de cunho racial são, ao lado dos xingamentos expressos por causa da cor da pele, os casos de racismo mais presentes no ambiente escolar de acordo com depoimentos de alunos.

Catraquinha: Pode citar pequenas situações de racismo que praticamos no dia dia da escola e que muitas vezes nem percebemos?

Ana Cristina: É especialmente importante se manter alerta para evitar que as falas sobre o racismo caiam no senso comum. Muitas vezes o debate reside em uma comparação banal que relaciona o preconceito racial a outros tipos de preconceito existentes no campo social, como com as pessoas que possuem um determinado corpo fora de uma norma (como estatura, peso) ou ainda com relação às condições socioeconômicas que confundem a questão do racismo e das discriminações.  Existem variados tipos de preconceito e é preciso separá-los, ainda que todos levem a diferentes tipos de discriminação.

É preciso ter em conta que a escola brasileira é parte de uma história secular de uma sociedade em que as diferenças são pouco valorizadas.

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Jornalista, editora do Catraquinha e mãe do Joaquim, de quatro anos.

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