Se tem um assunto que tira o sono de pais e mães são as vacinas. Desenvolvidas para proteger crianças e adultos de uma série de doenças, elas ainda são cercadas de muitos mitos relacionados a seus efeitos colaterais, à sua procedência e à relação com algumas doenças. Diante desses questionamentos, algumas famílias têm decidido não vacinar ou adiar o processo de imunização do seu filho. Contudo, antes de tomar essa decisão, é importante buscar informação e entender alguns pontos.

O que são as vacinas

O médico Renato de Ávila Kfouri, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), explica que as vacinas são produtos que oferecem um desafio para o organismo e, com ele, o corpo passa a produzir anticorpos: "Assim, quando nos depararmos com o agente real daquela doença, teremos uma defesa real, ou adoeceremos de forma mais leve".

As vacinas são especialmente importantes durante a infância, que é um momento de maior vulnerabilidade da imunidade. Inclusive, como o especialista explica, a criação das primeiras vacinas, como aquelas contra varíola, coqueluche e sarampo, contribuíram muito para combater a mortalidade infantil. Mas os pequenos não são o único alvo do processo de imunização. "Depois, percebeu-se que havia uma oportunidade muito boa de investir em prevenção com a vacina, aplicando em adolescentes, adultos, viajantes, doentes crônicos, entre outros grupos".

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Imunização é fundamental na primeira infância

Produção de vacinas

As vacinas utilizam como base o vírus ou a bactéria causador daquela doença, e são empregadas técnicas variadas, que incluem desde o uso do micro-organismo vivo atenuado até fragmentos do micro-organismo ou engenharia genética.

Renato esclarece que a maior parte delas é produzia internacionalmente. No entanto, quando o Brasil adquire uma vacina, há um compromisso de transmissão de tecnologia: "Por exemplo, quando compramos a vacina contra o HPV, adquirimos o suprimento por dez anos, mas, depois disso, o Instituto Butantan, em São Paulo, recebe a tecnologia. Assim não ficamos dependentes a longo prazo".

Apesar de poucas vacinas serem produzidas localmente, hoje, 80% da vacina contra a gripe é fabricada em solo nacional. Nesse sentido, quando há a tecnologia e a demanda, temos basicamente dois institutos atuando nessa fabricação: o citado Instituto Butantan, em São Paulo, e a Fundação Oswaldo Cruz (Fio Cruz), no Rio de Janeiro.

Distribuição e calendário

Quando as vacinas chegam ao Brasil, são distribuídas pelo Ministério da Saúde, mais especificamente pelo Programa Nacional de Imunização, que foi criado em 1973. Para orientar o público e o sistema de saúde, temos um calendário nacional de vacinação, que elege públicos prioritários para cada vacina. "A diferença da recomendação do calendário para a recomendação da SBP, por exemplo, é que, na rede particular, tomamos a decisão sobre uma vacina individualmente, de acordo com cada paciente. A avaliação da saúde pública é eleger prioridades. Por exemplo, a vacina contra a meningite, idealmente, seria dada até a adolescência, mas, hoje, é conferida em três doses na primeira infância", explica o especialista.

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Vacinas ajudaram a erradicar doenças no Brasil

As clínicas de imunização privadas também incorporam os avanços com mais facilidade. É o caso da vacina pneumocócica, que combate bactérias causadoras de pneumonia, meningites e otites, e protege contra 13 tipos na rede privada, enquanto a vacina da rede pública cobre 10 tipos. O mesmo se dá no caso da vacina contra meningite C, que, na rede privada, cobre contra as meningites A, C, W e Y.

Movimento antivacina

Atualmente, algumas famílias têm optado por não vacinar os filhos ou por adiar essa decisão. É o caso da veterinária Ana*, mãe de um bebê de quatro meses. Na família de seu marido, nenhuma criança foi vacinada: "Meu sogro é homeopata, e para a homeopatia a vacinação pode desencadear muitos processos inflamatórios no sistema imunológico". Ela completa: "Sou também da área da saúde e acho que nada na medicina é inócuo, tudo tem prós e contras". Outra preocupação de Ana são alergias que podem ser geradas pelas vacinas, e os adjuvantes, elementos incluídos nas vacinas que ajudam em sua conservação.

Apesar de ser de uma família que naturalmente optaria por não dar as vacinas, Ana diz ter um posicionamento político: "Se fosse pensando só no meu filho, eu não vacinaria, mas, pensando no que a gente chama de 'prevenção de rebanho', em conseguir controlar as doenças na maior parte da população, é importante". Contudo, decidiu esperar o filho estar um pouco mais velho para vaciná-lo.

A respeito desse movimento, o médico Renato conta que, no Brasil, ele não é muito organizado, mas na Europa, por exemplo, há grupos que propõem leis e se estruturam de forma mais consistente. Entre as pessoas que questionam a necessidade de vacinar crianças, há ainda grupos religiosos e filosofias como a antroposofia, que acredita que é melhor para o organismo adquirir a imunidade por meio da doença.

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O movimento antivacina é forte em países da Europa

Por fim, medos dos efeitos colaterais e mitos espalhados pela internet alimentam a decisão de não imunizar. Renato alerta: "É importante observar os estudos de segurança das vacinas, que acompanham populacionalmente os efeitos de cada uma delas. São estudos muito sérios, com dados que seguem afirmando sua importância. Com isso, a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e dos ministérios dos países é para que se dê as vacinas dos calendários".

O médico lembra, ainda, que com as vacinas criadas erradicamos cinco doenças no Brasil: varíola, poliomielite, sarampo, rubéola e síndrome da rubéola congênita – sem falar na queda dos casos de coqueluche e meningite. "Os números falam por si só", diz.

Queda na imunização

De acordo com uma análise dos números do Programa Nacional de Imunização divulgada pela BBC em 29 de agosto, a cobertura vacinal está em queda no Brasil. A vacina contra a pólio é um exemplo: em 2016, o país registrou a pior taxa de sua cobertura nos últimos 12 anos – 84%, contra a meta de 95% da OMS.

Para Renato, um dos principais fatores da queda do número de imunizações no Brasil é exatamente o sucesso das doenças – como muitas delas desapareceram ou se tornaram raras, as pessoas passam a acreditar que não precisam das vacinas. Os próprios médicos recém-formados, com frequência, nunca viram algumas dessas doenças, deixando de dar o mesmo vigor à sua recomendação.

Assim, surge o que o médico chama de "desaparecimento da percepção de risco". "Mas o mundo não está livre: há muitos casos de sarampo na Europa, de pólio na África, e criar condições para que essas doenças reapareçam é muito ruim", fala.

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