A afirmação que dá título a este texto faz parta da tese da psiquiatra espanhola Ibone Olza, autora do livro "Parir", publicado até o momento apenas em espanhol.

São inúmeros os fatores que definem a violência obstétrica. Talvez o primeiro e principal deles seja a equipe médica não respeitar as escolhas da mulher; é daí que deriva todas as outras formas de violência - física e psicológica.

O cenário é alarmante e, infelizmente, não faltam relatos de mulheres que tiveram seu trabalho de parto marcado por procedimentos desnecessários e abusivos.

Segundo uma reportagem especial sobre o assunto publicada pelo jornal El País, o aumento da cultura de cesáreas faz parte de uma prática de "patologização da mulher". Ou seja, enxergar o corpo da mulher como algo passível de intervenções a todo custo, transformando-as em vítimas de um intervencionismo exagerado e infundado.

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A violência obstétrica pode configurar desde tratamentos culpabilizadores até imposição de protocolos do hospital.

“Se olhamos a linguagem popular e comum, todos os temas relacionados à fisiologia das mulheres têm um nome patológico. Quando menstrua, se diz que a mulher está enferma; quando procura um método contraceptivo, se diz que vai fazer um tratamento; quando quer fazer um aborto, se diz que vai encontrar um remédio; quando chega o parto, dizem que agora vai melhorar”, explica em entrevista ao jornal o médico René Castro, que durante 18 anos esteve à frente do Programa de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde.

Para ele, é perigoso quando a sociedade civil - principalmente as famílias, que se deixam levar por procedimentos abusivos por falta de informação - permite a naturalização desses processos. Afinal, muitas práticas desnecessárias são realizadas por comodismo ou interesse das equipes médicas.

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Um parto saudável é aquele que acontece da forma como a mulher e a família desejam, e independe da via de parto escolhida.

Ainda segundo a reportagem, as intervenções desnecessárias durante a gestação ou trabalho de parto aumentam as alergias, alteram o sistema imunológico, obesidade e facilitam quadros infecciosos. É a tese da antropóloga e pesquisadora sobre violência obstétrica Michelle Sadler.

Para Castro, apesar desses efeitos físicos graves, o pior efeito ainda é emocional, e recai principalmente sobre a mulher.

"Tiramos das mães o direito de desfrutar de uma experiência humana, prejudicando os primeiros momentos com seu filho recém-nascido”, afirmou ao El País.

O profissional cita o trabalho da especialista no asssunto, Ibone Olza, psiquiatra e ativista espanhola. Para ela, mulheres que passaram por experiências traumáticas no parto apresentam os mesmos sintomas de vítimas de estupro. Isso acontece porque elas se sentem forçadas e consentir procedimentos invasivos, dolorosos, cujas consequências não foram informadas.

*Com informações de El Pais

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