Nem sempre é simples detectar onde ele começa, o fato é que o bullying é um ciclo complexo que envolve o contexto social e familiar do praticante, ressoa no ambiente escolar e de convívio e pode causar danos irreparáveis. Nos últimos dias, mais uma tragédia ocasionada por essa prática tomou o noticiário nacional: em Goiás, adolescente de 14 anos protagoniza um tiroteio dentro da escola e deixa dois mortos e cinco feridos - clique aqui para saber mais. O motivo? O desejo de vingança do jovem atirador por ter sido alvo de chacotas e discriminações dos colegas.

A história chama para o centro das atenções a necessidade de  discutir o tema de forma assertiva não só dentro do ambiente escolar, mas também na família e nos demais espaços de convívio da criança e do adolescente.

Porém, outro aspecto do assunto também vem à tona: como impedir que o agressor se torne agressor? Como mostrar aos pequenos desde a primeira infância que rir do outro, acentuar uma característica indesejada ou maldizer um traço de sua personalidade é estar do lado do agressor? De onde os chamados bullies apreenderam a violência que praticam? Que referências de empatia, respeito e tolerância essa criança recebe em casa e em seu círculo de convívio?

  • O que diz a lei? Sancionada em 2015, a Lei nº 13.185  determina que é considerada bullying toda intimidação sistemática, envolvendo violência física ou psicológica, praticado por indivíduo ou grupo, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la ou agredi-la, causando dor e angústia à vítima.  Além disso, a lei também determina que é dever da escola assegurar medidas de conscientização, prevenção e combate a prática.

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A educação recebida em casa e pelo círculo social em que a criança vive são determinantes para estabelecer suas referências de respeito ao outro.

Considerando que é na infância que o indivíduo constrói e solidifica suas primeiras referências de respeito, tolerância e alteridade, esse trabalho de sensibilização com os pequenos é ainda mais importante, e é necessário haver sempre um canal aberto de diálogo franco sobre as questões que os afligem, principalmente os assuntos considerados tabus e sobre os quais costuma ser mais difícil falar, como sexualidade, por exemplo.

É preciso compreender que, em toda ação, há sempre três partes envolvidas: quem faz o bullying (os chamados "bullies"), quem sofre, e quem presencia). Portanto, um trabalho integrado envolvendo toda a comunidade escolar - coordenadores, professores, funcionários, estudantes - e a família é o primeiro passo para combatê-lo.

Militante da questão, a jornalista e ativista Vanessa Bencz  - autora do livro "A Menina Distraída", que conta a história de uma menina vítima de abuso psicológico que é salva por uma super-heroína - alerta para a importância de considerar também o lado do jovem que praticou o crime, que passou de vítima a agressor por uma série de fatores que denunciam uma sociedade despreparada para lidar com a questão.

"Pode ter certeza que psicólogo nenhum vai conseguir juntar os pedacinhos desse guri. Cadeia nenhuma A vai reabilitar esse menino para a convivência harmônica. Uma mente sã jamais recorreria a uma arma. (...) A gente precisa falar sobre isso. Mas, antes, vamos ajustar nosso foco. Parem de falar em armas. Vamos falar das mãos que procuram essas armas", defende.

A pedido do Catraquinha, Vanessa preparou uma pequena lista com sugestões de abordagem do assunto em casa, para colocar o bullying em pauta em um momento anterior à prática, com o intuito de evitar que as crianças naturalizem a agressão - verbal, física ou emocional - e priorizem o respeito ao outro em todas as suas ações, palavras e comportamentos.

  • 1. Ser forte não significa ofender e nem bater nas pessoas

"Forte é aquele que protege quem está ao redor. Sabe como se protege alguém? Sendo amigo dessa pessoa e aceitando as diferenças."

  • 2. Só chame seu colega por um apelido se ele te permitir chamá-lo assim

"Afinal, cada um de nós tem um nome e a gente quer ser chamado por este nome, e não por um apelido chato."

  • 3. Ainda bem que todo mundo é diferente entre si

"Diferente não quer dizer que seja ruim. Imagina que chato se todo mundo fosse igual?"

  • 4. Fazer um elogio ao seu colega pode mudar o dia dele, sabia?

"Elogie naturalmente, você vai ver como isso melhora o dia dos outros."

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Quem compactua com piadas ofensivas a alguma minoria também está do lado do agressor, cabe também aos pais mostrar isso aos filhos.

  • 5. Pense antes de rir do apelido que deram ao seu colega. 

"Ele pode se sentir ainda mais constrangido! Quem ri de piadas ofensivas está do lado do agressor."

  • 6. Seja amigo daquele colega que está excluído na turma. 

"Coloque-se no lugar dele. É muito chato ficar sem amigos! Que tal puxar um assunto e fazer companhia?"

  • 7. Se você for xingado ou receber um apelido ofensivo, não xingue de volta e nem coloque outro apelido ruim nesta pessoa. 

"O ideal é contar para seu professor ou professora. Eles é que saberão agir nesta situação."

  • 8. Sabia que os professores podem ser nossos amigos também?

"Você levará algumas dessas amizades para o resto da sua vida."

  • 9. Você é muito amado e não precisa fazer de conta que é outra pessoa só para ser aceito.

As pessoas que realmente te amam são aquelas que te enxergam como você é.

  • 10. Você tem um futuro inteiro pela frente e vai gostar de lembrar que, na escola, era admirado por ser gentil, educado e carinhoso com todos

Há qualidades que demandam sensibilidade e maturidade para serem valorizadas.

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Renata Penzani é jornalista, repórter do Catraquinha, pesquisadora do livro para a infância e autora do site Garimpo Miúdo.

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