Mulheres trabalham em média 7,5 horas a mais do que os homens por semana (fonte: IPEA). No Carnaval do Rio de Janeiro de 2017, uma mulher foi agredida a cada quatro minutos. Meninas passam mais tempo nos afazeres domésticos do que meninos. Uma pesquisa aponta que, a partir dos seis anos, a menina introjeta a desigualdade de gênero e passa a entender que somente meninos podem ser gênios. Pesquisas apontam que o Brasil é um dos piores países da América do Sul para ser menina. De acordo com o último balanço do Disque 100, em 2015, o canal recebeu 17.583 denúncias de violência sexual: desse total, 45% foram contra meninas.

Os dados acima fazem parte do noticiário recente. Não é preciso nomear os envolvidos nem detalhar os fatos para entender que eles justificam a existência de um mês dedicado à mulher. Mais do que isso, eles são apenas alguns dos indicativos de uma realidade urgente: precisamos, sim, - e cada vez mais - , falar sobre feminismo.

E igualdade de gênero também é assunto de criança. A discriminação contra a menina, hoje, é a violência contra a mulher de amanhã, e perpetua um ciclo que fortalece o agressor - seja ele o homem, o Estado que não protege a mulher ou a política que a deslegitima - e desune as próprias mulheres, vítimas primeiras de um pensamento social e historicamente construído segundo o qual a voz da mulher não tem valor.

Por isso, neste mês de março, o mês da mulher, o Catraquinha apresenta uma série de reportagens sobre o tema. Afinal, igualdade entre meninas e meninos é assunto de todos, e deve ser encarada como prioridade absoluta nas pautas relacionadas à infância.

Aqui, listamos alguns dos muitos projetos que têm surgido em todos os cantos do país com o objetivo comum de desconstruir os estereótipos de gênero na infância. Oficinas, cursos, livros, atividades: passos de formiga em uma jornada que ainda está longe de terminar. Todos eles fazem parte da luta por uma educação menos centrada na diferenças e distinções e mais preparada para promover a tão sonhada igualdade entre meninos e meninas.

Marias que vão, sim, com as outras

Marias vão com as outras”. Durante muito tempo, o dito popular foi sinônimo de opressão contra as mulheres – e ainda é, para muita gente. Em outubro de 2016, um coletivo de mulheres resolveu ressignificar a expressão e dar ela uma conotação positiva e transformadora, partindo de um dado do IBGE segundo o qual o Brasil é habitado por mais de 17 milhões de Marias, mais do dobro de Josés, o nome masculino mais comum no país. Como transformar essa informação em ação?

Surgiu assim o projeto “Marias vão com as outras”, idealizado por um coletivo de mulheres de de Florianópolis.

“Tantas Marias precisam perceber que juntas são mais fortes e que elas podem sim ir com as outras. Marias são autossuficientes. Marias resistem”, explica.

Créditos: Divulgação/Marias vão com as outras

"Mais do que a vontade de se embelezar, percebi uma vontade de ser ela mesma, de explorar o seu melhor", conta a mãe de uma das meninas participantes da oficina.

O projeto, que conta com uma campanha de financiamento coletivo no Catarse, realiza oficinas com meninas de dez a 14 anos, onde oferecem atividades permeadas pelo objetivo de desconstruir estereótipos e educar as meninas para a liberdade de gênero. O intuito dos encontros é unir as participantes em torno de uma pergunta que ecoa ainda sem resposta na insegurança de muitas meninas que crescem cercas de inseguranças e imposições: “o que é ser menina hoje?”

“Cada menina traz uma vivência diferente que está relacionada a outras marcas identitárias, como raça, classe, faixa etária, orientação sexual, entre outras. Pudemos observar que, nessa idade, as questões relativas ao corpo, como o assédio e a necessidade de aceitar sua beleza fugindo das normatividades e imposições geraram diferentes muitos debates”, explica Gabriela da Silva.

Créditos: Divulgação/Marias vão com as outras

Entre as práticas da oficina, foi proposto às participantes elogiarem umas às outras.

O “Marias vão com as outras” é formado pela força e vontade de um grupo formado por Gabriela da Silva, Izabele Cristini da Silva e Rafaella Machado, todas formadas pela Universidade Federal de Santa Catarina. Clique aqui para conhece-lo a fundo e acompanhar os próximos passos do projeto.

Não desprincese as meninas, empodere as princesas

Há muitos anos, este tem sido o norte do trabalho da pedagoga Caroline Arcari. Reconhecida pelo trabalho à frente do Instituto CORES, da Escola de Ser, e pelo livro “Pipo e Fifi”, que trata a questão do abuso sexual contra crianças, ela criou, ao lado da psicóloga Nathalia Borges, o curso “Princesas de capa, heróis de avental”. A ideia, conta ela, é trabalhar a questão de gênero por uma perspectiva lúdica.

O nome do projeto propõe uma inversão dos papéis de gênero da forma como os conhecemos, e defende que tudo aquilo que dita um comportamento ou reforça um padrão constrói um modelo engessado de comportamento. As coordenadoras do projeto acreditam que os espaços educativos devem investir na emancipação de meninas e meninos para que desenvolvam pensamento crítico e façam escolhas conscientes no futuro.

Quando ao machismo ser aprisionador tanto para meninas quanto para meninos, Caroline conta que tem sido mais fácil trabalhar a desconstrução de estereótipos com o público feminino.

"Trabalhar esta temática com meninas é mais simples pois nas discussões e atividades elas ganham autonomia, se empoderam sobre o seus corpos, se veem mais capazes de tomar decisões independente da opinião alheia e também se sentem acolhidas em suas angústias e denúncias. Por outro lado, ao se trabalhar a mesma temática com os meninos, eles “perdem” coisas, perdem privilégios, perdem poder, deixam de ser legitimados por comportamentos opressivos que são tidos como da personalidade masculina. Porém, ganham  em  possibilidades de existir, tanto individualmente como socialmente, pois a medida que aumentam suas possibilidades de ser e se expressar  das mais variadas formas", explica Nathalia Borges.

Créditos: Reprodução

Algumas das atividades do curso são inspiradas no livro "Heróis super suaves", de Linnéa Johansson, que trazem figuras marcantes do imaginário infantil executando tarefas domésticas para instigar uma reflexão sobre a inversão de papéis de gênero.

“Meninas devem ser o que elas quiserem. Antes empoderar princesas (se essa for uma identidade na fantasia das crianças), do que desprincesar e criar um novo padrão. Meninas podem ser cientistas, esportistas, engenheiras, cozinheiras e até princesas. O princípio mais fundamental dos direitos delas deve ser respeitado: a liberdade de serem o que quiserem. Quanto mais experiências enriquecedoras em todas as áreas as crianças tiverem, meninos e meninas, mais chances de ter um desenvolvimento pleno e feliz”, explica Caroline.

O curso é online e à distância, e a primeira turma iniciou no dia 15 de fevereiro, com materiais, atividades e metodologia própria, e trabalham questões como:

  • No cotidiano: o que fazer e o que não fazer?
  • Em casa: como promover um ambiente de igualdade e respeito em família
  • E em outros espaços educativos? Planos de aula para crianças e adolescentes

"O objetivo é estimular o pensamento crítico, enfrentar o machismo, as desigualdades e as violências e criar metodologias acessíveis para a promoção da reflexão em atividades dirigidas para crianças e adolescentes entre 6 a 14 anos", conta.

Saiba mais sobre o projeto aqui.

Oficinas de desprincesamento: por que elas existem?

"Se queremos que nossas filhas sejam tudo o que elas podem ser é fundamental inculcar nelas mesmas, desde cedo, a importância da auto-confiança, de que a opinião delas importa, e que elas são únicas, preciosas e digas do mesmo respeito que seus amigos meninos”, explicou Mariana Desimone ao Catraquinha em novembro, quando publicamos uma matéria sobre as Oficinas de Desprincesamento que foram realizadas no ABC Paulista.

Créditos: Divulgação

"Nosso questionamento é: para ser uma menina, a criança precisa ter as características de uma princesa? Nosso trabalho é de desconstrução desse modelo a partir da vontade das meninas", afirma Larissa Galdolfo, organizadora da oficina.

Como sugere o nome, a atividade se opõe ao “princesamento” das meninas, encampada em grande parte pela Escola de Princesas, recém-inaugurada em São Paulo – clique aqui para saber mais – e pela publicidade infantil. Pensando nisso, são propostas atividades que questionam, por exemplo, de onde vem o conceito de "beleza ideal" que seguimos, se é pautado pela mídia ou pela própria menina.

Apostando no empoderamento infantil para a desconstrução dos rótulos, o projeto retorna no dia 12 de março, desta vez para uma atividade na capital paulista. A proposta? Discutir com mães, pais e cuidadores por que, afinal, a temática das princesas é tão presente no imaginário infantil e na publicidade dirigida à criança – sobretudo às meninas.

"Eu sofria muito bullying porque era muito gorda, perdi 10 quilos, entrei em depressão e sofri bastante por conta do paradigma do corpo ideal", conta uma das participantes no vídeo institucional do projeto.

"O fato de existir um grupo para debater tudo isso faz com que ela não se sinta sozinha", desabafa a mãe de uma das meninas.

Créditos: Divulgação

Encontro das oficinas de desprincesamento, em São Paulo.

Em entrevista ao Catraquinha, Mariana explica que, apesar da grande procura pela oficina, muitos pais e mães rejeitam este tipo de proposta. ”Para colocar os filhos em uma oficina do tipo, primeiro precisamos reconhecer que vivemos em uma sociedade machista e patriarcal que espera que as nossas meninas atendam a certos padrões. Reconhecer isso já é um grande trabalho, e sabemos que não são todos que enxergam a nossa vida em sociedade dessa forma”, explica.

“O maior desafio é realmente lidar com pessoas que acreditam que não há injustiças ligadas à questões de gênero em nossa sociedade, que é um assunto menor e que o mesmo não merece tanta importância”, diz a organização da oficina.

A perspectiva do projeto é estender as atividades para o Rio de Janeiro e Nordeste. Além das oficinas, a iniciativa vai oferecer pequenos cursos temáticos para pais e educadores, tratando das questões ligadas às temáticas de gênero.

 “Meninas Com Ciência”: curso de Paleontologia, Geologia e Gêneros para futuras cientistas

A desigualdade de gênero afeta não só a percepção sobre a identidade e individualidade de meninas e meninos, mas também a educação e os referenciais que elas recebem do que "podem" ou não fazer de acordo com o que o ideal social de feminilidade e masculinidade espera. Quando o assunto é a escolha de uma profissão, não seria diferente, e é comum que meninas se afastem de suas reais áreas de interesse por receio de sofrerem preconceito, daí a importância de estimular o contato com a diversidade na infância.

A coordenadora do projeto, Luciana, afirmou ao Catraquinha que...

Com o objetivo de diminuir as distâncias entre o desejo das meninas de estudar temáticas consideradas "masculinas", o Museu Nacional, ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, criou o curso de extensão "Meninas com Ciência: Geologia, Paleontologia e Gênero". As aulas são ministradas por biólogas, astrônomas, geólogas e educadoras do Museu Nacional, e são voltadas para garotas do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental.

Ficou curioso e quer conhecer melhor o projeto? Clique aqui.

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Renata Penzani é jornalista, repórter do Catraquinha, pesquisadora do livro para a infância e autora do site Garimpo Miúdo.

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