Em maio deste ano, nasceu uma plataforma online que se propõe a fazer diferente do que já é produzido sobre maternidade. O "Não me chamo mãe" quer falar sobre a maternidade também, mas além dos cuidados diários de um bebê, sobre amamentação, alimentação, criação e educação.  "Queremos dar voz as mulheres que (re)nasceram pós-maternidade, a relação delas com essa nova vida, do que gostam e não gostam, dos seus sonhos e angústias, dos seus trabalhos e carreiras, o que amam fazer, ouvir e pra onde querem ir", dizem.

O site é alimentado por trinta colaboradoras que, entre outras coisas fala sobre arte, fotografia, gastronomia, passeios e mais.

Créditos: reprodução / Não me chamo mãe

Espaço pensado e criado por mulheres que travam a batalha diária de ser mãe x ser mulher.

Sim, somos mães, mas também somos Carolinas, Priscilas, Brunas, Teresas, Fátimas, Fernandas, Natálias, Rebecas, Rejanes, Anas e Livias. Parimos naturalmente, fizemos cesariana, abortamos, adotamos e perdemos umx filhx. Somos negras, brancas, da cidade, do interior, da serra e da praia. Somos da favela, do asfalto, da Zona Norte, da Zona Sul e da Baixada. Somos putas e santas, escandalosas e tímidas. Gostamos de homem e também de mulher.

Conversamos com Bruna Messina, umas das fundadoras do projeto para contar um pouco mais sobre a iniciativa. Confira!

Catraquinha: Me conta quando e como surgiu o "Não me chamo mãe"?

Bruna Messina: Eu sou redatora e sempre trabalhei com produção de conteúdo pra internet. Durante a gravidez, já com um super barrigão de seis meses comecei a pensar sobre projetos pessoais que conversassem com esse novo momento de vida e que eu pudesse tocar depois que a minha filha nascesse. Zoé veio em agosto de 2016, puerpério punk logo em seguida também, e depois de alguns meses reencontrei o caderninho e as anotações. Para, mim era óbvio desde o início que eu não teria tempo hábil e que não faria muito sentido, tocar o projeto sozinha, então dividi a ideia com mais duas amigas queridas também mães: a Carolina Bittencourt, que é figurinista e a Piti Lacerda, chef. Rolou um grande brainstorming de nós três durante alguns meses e parimos juntas o “Não me chamo Mãe” que nasceu em maio desse ano.

Catraquinha: Pode falar um pouquinho sobre você e sobre as outras mulheres colaboradoras?

Bruna Messina: O site é totalmente pensado e feito por mães. As primeiras parcerias que tivemos foi a Lis Mainá (Tatudona) que é tatuadora e se jogou no desafio de fazer a identidade visual do site; e a Maria Antonieta que é programadora e além de desenvolvedora do site, hospeda o “Não me chamo Mãe’ em uma plataforma desenvolvida por ela e pelo companheiro, chamada “Batepronto". Em paralelo, criamos um grupo secreto no Facebook com algumas mães parceiras pra ser um espaço livre de troca e criação de conteúdo pro site. As colaborações são em forma de textos paro o site, artísticas ( fotos e ilustrações cedidas por elas para ilustrarem as matérias) e também pitacos e sugestões sobre temáticas a serem abordadas.

Catraquinha: Qual a importância de ser ter um espaço de comunicação escrito por mães diversas?

Bruna Messina: Não teria nenhum sentido criar um site falando sobre maternidade expondo o ponto de vista de uma mãe só. As nossas realidades, dores, delícias são muito particulares. Temos mães negras, homossexuais, bissexuais, que vivem relacionamentos abertos, mães periféricas, mães solo. Cada mulher encara e vive a maternidade de uma maneira muito única.

Catraquinha: Existem muitos blogs e sites voltados para o tema da maternidade na internet. O que falta neles e qual falta o “Não me chamo mãe” vem suprir?

Bruna Messina: Acho que existe um início de um movimento bacana de mães pautando a "desromantização da maternidade". A Hel Mother e a Mãe Solo sem dúvida foram e são referências para gente. A maioria, ou todos os outros sites, abordam questões relacionadas ao parto, criação e cuidado com esse bebê que vai nascer. Do parto natural ao uso de chupeta. Do uso de sling a introdução alimentar. Eu sempre me perguntava o que realmente acontecia com aquela mulher depois do parto. Pra onde ela foi? Pra onde ela quer ir? Todo mundo fala sobre quem nasce, mas quase ninguém sabe o que acontece com quem tem que renascer.

É preciso desmistificar essa imagem de "super - mãe" , "mulher maravilha" que colocam em cima das mulheres que se tornam mães. É muito cruel, porque a gente acaba se cobrando também. Essa mulher precisa ser cuidada para poder cuidar.

Catraquinha: O "quem somos" de vocês fala sobre os assuntos que só são discutidos nos grupos de mães. Quais são estes assuntos que precisam ser discutidos?

Bruna Messina: Existem muitos "tabus" no universo feminino, quem dirá das mães. Rola todo um pano rosa em cima dessa mulher. Sexo é um deles por exemplo. O retorno da vida sexual das mulheres pós filhos já é tanto complexa e para uma mãe solo? Alguém fala sobre isso? É como se quem parisse virasse praticamente um ser assexuado e não sentisse falta de sentir prazer. A vida profissional também é outra questão, com empresas que cada vez mais catapultam as mães do mercado de trabalho. Já li relatos péssimos sobre empresas alegarem que "agora é hora de você cuidar do seu filho, assim você vai ter mais tempo". Como se ser mãe, já fosse uma profissão.

O puerpério, os relacionamentos abusivos com os pais das crias e como isso é naturalizado até mesmo pela sua família, que tudo bem tomar uns bons drink quando se está amamentando, como encarar as mudanças nesse corpo pós parto, ou até das coisas mais simples, falar sobre música, viagem, moda, etc. Acho que todo assunto que foca na mulher e não na mãe, acaba sendo um tabu e é o que queremos levantar aqui.

Catraquinha: Como o público tem recebido o site e como ele se mantém financeiramente?

Bruna Messina: Estamos super felizes com a audiência do site que teve em um dos seus posts, já mais de 20 mil visitas em menos de 24 horas. É muito prazeroso se sentir mais uma pedrinha ocupando esse buracão que é a falta de iniciativas do tipo. Como ainda não temos nem um mês de site, ainda não temos uma fonte de renda e ele é feito totalmente de forma colaborativa. Em breve vamos inaugurar uma loja online com produtos do site como camisetas, canecas, cases de celular, etc. e também abrir espaço para anunciantes focando nos empreendimentos maternos.

"Não sou obrigada a me sentir completa por ter filhos", diz mãe

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Jornalista, editora do Catraquinha e mãe do Joaquim, de quatro anos.

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