Quais são as armas mais eficazes para combater o racismo? A reverência à nossa origem africana, a afirmação estética, medidas políticas? Esses questionamentos sempre estiveram comigo, mas um evento as tornou vitais, caso de vida ou morte mesmo: o nascimento dos meus filhos.

  • Trecho do livro “Na minha pele”, de Lázaro Ramos, Editora Objetiva

Pare por alguns segundos e faça este exercício: tente imaginar um super pai, parceiro, que cuida e ama os filhos e que divide igualmente os cuidados das crianças. Qual pai vem em sua cabeça? Pense nas campanha publicitárias, faça uma busca no Google. Qual é a imagem deste pai?

“Ainda que na grande mídia, de forma geral, tanto nas representações de homens brancos, quanto de homens negros, esteja nascendo um movimentos para igualdade de gênero, homens negros ainda são majoritariamente representados como sujeitos subalternizados ou ligados a alta violência armada, por exemplo. As posições de poder social que são tidas como positivas na sociedade brasileira ainda são representadas como espaços ocupados por homens brancos em sua maioria”, declara Mohara Valle, consultora de comunicação do Instituto Promundo, organização que incentiva a participação dos homens no cuidado paterno para promover a equidade de gênero, prevenir violência contra mulheres e crianças e contribuir para uma melhor saúde materna e infantil.

Por isso, ela defende que é importante retratar homens como personagens inspiradores, em histórias de pais cuidadores, não-violentos, que dividem tarefas domésticas com as mães, trazendo o olhar para sua humanidade e capacidade de afetividade que muitas vezes o racismo apaga e ressignificar a ideia do que é ser um homem negro.

Créditos: arquivo pessoal

Josimar Silveira: "Nossa maior preocupação é desenvolver neles a auto-estima através principalmente da representatividade, colocando-os em contato com um universo negro positivo, bonito, inteligente, grande. Bonecas, super heróis e artistas negro por exemplo, estão sempre presentes em nosso dia a dia".

Existe uma premissa de que os pais negros são mais ausentes na vida dos filhos. Condições econômicas dos pais negros que não vivem com seus filhos e, portanto, não podem vê-los com frequência ou prover bens de consumo e educação, fez com que se criasse uma imagem de que o pai negro não valoriza a paternidade.  “Não conheço dados que apontem essa situação de ausência. Tanto homens negros, quanto brancos apresentam situação de ausência em relação aos seus filhos, acredito que essa situação aconteça, também, pela falta de planejamento. E isso acaba gerando um problema muito sério para a mulher que assume a criação sozinha. Agora, famílias desestruturadas podem ser mais recorrentes em espaços que apresentam rendas abaixo dos índices de pobreza e isso afeta diretamente a comunidade negra por ainda não ter atingido um grau de escolaridade que nos permita melhores rendimentos. E a situação de falta de perspectiva, com desemprego e abuso no uso de álcool e drogas são fatores que podem explicar essa situação", opina Leonardo Bento pai da Aísha de cinco anos, da Naíma de três anos.

No entanto, esses números  e este imaginário não podem ser ignorados, eles contribuem para invisibilizar o grande número de pais negros que são presentes e participativos na vida das suas crianças.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças, nos Estados Unidos, publicou em agosto deste ano dados sobre o papel dos afro-americanos enquanto pais e o  trabalho foi postado no site americano Defender Network.

O estudo desconstrói estereótipos sobre paternidade negra, mostrando que pais negros estão sim, envolvidos na rotina dos seus filhos. Leia o estudo completo aqui (em inglês).

  • Convidamos três pais negros para contar um pouco da sua experiência com paternidade e sua relação com filhos. Leia os depoimentos.

No início foi assustador se descobrir pai de uma menina. Crescemos em um ambiente extremamente machista. Onde tudo para a mulher é restrito. Sou único filho homem (do segundo casamento do meu pai) entre quatro filhos, deste casamento. Mesmo sendo o único homem e bem mais caçula que minhas irmãs (a mais nova delas é sete anos mais velha que eu), eu sempre tive muito mais liberdade em fazer as coisas que elas. Quando fui pai de uma menina todas essas questões pularam na minha cara. Aprendo a cada dia mais com a minha companheira. Tenho que aprender. Tenho que me controlar a todo momento para não deixar que a carga de machismo com que fui criado chegue na minha filha.

Enquanto ela não falava e interagia era viver com medo de ser acusado de sequestrador a todo momento. Agora esse receio é menor, pois fica fácil de comprovarmos que ela é minha filha. Mas, só o fato de saber que ainda pode acontecer uma acusação como essa, me deixa super pra baixo. É isso. Na história do nosso país estamos atrás em tudo e sendo sempre acusados, para só depois se averiguar se a acusação é verídica ou não.

Hélio Gomes é corretor de seguros e pai da Elis, de um ano. Ele participa do Podcast Balaio de Pais e escreve na seção "Pai Supimpa" do blog Paizinho, Vírgula!

Créditos: arquivo pessoal

Hélio mora em São Paulo e é pai da Elis, de um ano.


Moramos num país onde a desigualdade de raça, gênero e classe é muito enraizada. Então aqui, o negro já tem que nascer lutando por seus direitos. Não tem outro caminho. O negro que quiser ser tratado com igualdade tem que militar diariamente, ser resistência. E se você é um pai negro, você tem que, além de lutar contra o sistema de privilégio branco, você tem que ensinar para seu filho que racismo, machismo e desigualdade social não são valores que não cabem numa sociedade democrática. E essa discussão é pouco feita porque a branquitude que vem desde a época colonial, que domina os os três poderes, não quer ter seu privilégio questionado. Como nasci e fui afrobetizado por uma família matriarcal, onde as mulheres negras são quem decide, o machismo sempre foi algo muito discutido. Nunca tive problemas em discutir sobre o assunto e reconhecer meus escorregões.

Créditos: arquivo pessoal

Junião é autor do livro infantil "Meu pai vai me buscar na escola": quando Bernardo nasceu, vi uma oportunidade de contar uma história infantil em que eu e meu filho fossem os personagens.

Junião é artista gráfico e músico e pai do Bernardo, de seis anos.


Ser um pai negro, presente, que cuida dos filhos em período integral, dividindo com a esposa todas as responsabilidades da casa e da família, é antes de tudo uma quebra de paradigmas, se levarmos em conta a imagem estereotipada atribuída ao homem negro e, na maioria das vezes introjetada por ele, de um homem irresponsável, mulherengo, machista, que não é capaz de cuidar dos seus filhos. Acredito que a escassez de discussões que tenham como pauta a paternidade preta, se dá principalmente por conta da descrença na que se tem da capacidade do homem negro de ser um bom pai. Confesso que a princípio, quando eu soube que iria ser pai de uma menina, fiquei bem assustado. Mas isso passou muito rápido. Sei que tenho a responsabilidade de ensinar à minha filha que ela pode ser o que quiser como mulher, independente do machismo e como negra, independente do racismo.

O privilégio de ser homem num mundo machista possibilita ao homem poder escolher se vai ou não estar presente na vida de seus filhos. E isso acontece independentemente da cor da pele. Mas é claro que se enfatiza e se torna muito mais grave se o cara for preto. É muito sofrido saber que, todo o cuidado que temos em fortalecer nossos filhos, todas as estratégias que desenvolvemos para prepará-ls para o mundo, nada disso impedirá que eles, enquanto crianças pretas, sofram na pele o gosto amargo do racismo. É muito ruim ter que estar sempre alerta porque a qualquer momento pode acontecer. Um pai de criança branca nunca vai saber o que é isso.

Créditos: arquivo pessoal

Josimar é autor do canal no Youtube "Família Quilombo": "o canal nasceu com o intuito de ocupar um local onde a família preta não se encontrava representada".

Josimar Silveira, tem 37 anos, é pai Akins, de seis anos e da Dandara de dois anos.


O diferencial de ser pai negro é que o cuidado deve ser redobrado em relação às crias. Vivemos em uma sociedade complexa, onde é necessário estar atento a construção e elevação da autoestima de nossas crianças, cientes de que nossa postura será reflexo para muitas ações de nossos filhos, principalmente ao se depararem em situações onde o racismo esteja presente. Nós homens, principalmente nós homens negros, carregamos o estereótipo da fortaleza, da masculinidade exacerbada, da hipersexualização e isso faz com que muitos negros não se envolvam em grupos de apoio ou de diálogo para troca de experiências sobre o que é ser pai e outros assuntos que permeiam a paternidade. Mas sei de alguns pais negros que reconhecem a necessidade de iniciar um diálogo franco sobre situações específicas. Ser pai de menina e de menino é estar atento as imposições de gênero que a sociedade nos coloca. Por mais que tenhamos consciência das cores que são impostas para um e para outro, roupas, assim como os brinquedos são de criança e não para meninos e meninas. Pai de menina negra aprende desde cedo a importância de ensinar que a independência e a liberdade são valores que estão acima de muitas coisas. Assim como mostrar diariamente o quanto são inteligentes e apontar de forma que reconheçam o quanto são importantes.

Créditos: arquivo pessoal

Léo Bento é pai da Aísha de cinco anos, da Naíma de três anos e companheiro da Luciana.

Leonardo Bento tem 37 anos, é pai da Aísha de cinco anos, da Naíma de três anos.

'Preto, pai de branca': pai faz relato sobre racismo no dia a dia

‘Zumbi assombra quem?': livro infantil aborda questões raciais

'O racismo também é problema das famílias não negras', diz mãe

Imagem Autor

Jornalista, editora do Catraquinha e mãe do Joaquim, de quatro anos.

+ posts do autor