O pesquisador espanhol Jorge Larrosa, no artigo "Notas sobre a experiência e o saber de experiência", diz que, apesar de vivermos em mundo onde muitas coisas acontecem o tempo todo, estamos cada vez mais pobres de experiências reais. "A cada dia se passam muitas
coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. (...) Tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça".

Com as crianças, não seria diferente. Como o hiperestímulo e o excesso de informações, de ruídos, de atividades e de cobranças afetam a vivência de uma infância livre e conectada com sua essência?

A psicóloga espanhola Jennifer Delgado Suárez, no texto "Los quatro excesos de la educación moderna que transtornam a los niños', publicado no Rincón de la Psicología, investiga quatro aspectos da educação moderna que impactam a verdadeira experiência de ser criança e contribuem para a carência de que falou Larrosa.

Na escola, em casa, nos centros de ensino e cuidado, o que estamos fazendo de errado? Para Jennifer, a palavra-alerta é "muito", devemos prestar atenção em tudo o que for excesso, que ela divide em quatro pilares principais:

  • 1 – Excesso de coisas;
  • 2 – Excesso de opções;
  • 3 – Excesso de informações
  • 4 – Excesso de rapidez.

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"A melhor maneira de proteger o equilíbrio mental e emocional é educar as crianças na simplicidade", defende a psicóloga Jennifer Delgado Suárez.

Tais excessos estão diretamente relacionados a alguns vícios adultos que transmitimos para a criança mesmo sem perceber, como o consumismo, o tempo convertido em sinônimo de dinheiro e produtividade, a busca incessante por ocupar o ócio e utilizar todo o tempo livre da criança com demandas de desempenho.

"Enchemos seus quartos com livros, dispositivos e brinquedos. Na verdade, estima-se que as crianças ocidentais possuem, em média, 150 brinquedos. É demais, e quando é excessivo, as crianças ficam sobrecarregadas. Como resultado, elas brincam superficialmente, facilmente perdendo o interesse imediatista nos brinquedos e no ambiente, elas não são estimuladas a desenvolver a imaginação", diz a psicóloga.

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"Quando as crianças estão sobrecarregadas, elas não têm tempo para explorar, refletir e liberar tensões diárias. Muitas opções acabam corroendo sua liberdade e roubam a chance de se cansar, o que é elemento essencial no estímulo à criatividade e ao aprendizado pela descoberta", defende a psicóloga.

Nesse sentido, ela defende o valor do tempo livre para o desenvolvimento da criança.

"A melhor maneira de proteger a infância das crianças é dizer “não” para as diretrizes que a sociedade pretende impor. É preciso deixar que as crianças sejam crianças, apenas isso. A melhor maneira de proteger o equilíbrio mental e emocional é educar as crianças na simplicidade. Para isso, é necessário: Não encher elas de atividades extracurriculares, que, em longo prazo, não vão ajudá-las em nada. – Deixe-lhes tempo livre para brincar, de preferência com outras crianças, ou com jogos que estimulem a criatividade, jogos não estruturados."

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"A melhor maneira de proteger o equilíbrio mental e emocional é educar as crianças na simplicidade", defende a psicóloga Jennifer Delgado Suárez.

Suárez ressalta também a importância de não antecipar as cobranças por desempenho, uma vez que os pequenos terão a vida toda para demonstrar que são eficientes, habilidosos e capazes. Muitas vezes, segundo ela, as crianças só precisam de espaço para serem crianças.

"Deixe que elas sejam simplesmente crianças. Lembre-se que as crianças têm uma vida inteira pela frente até se tornarem adultos. Então, permita que elas vivam plenamente a infância", defende.

Clique aqui para ler o artigo na íntegra, publicado originalmente em espanhol pela revista digital Rincón de La Psicología e traduzido pela Revista Pazes.

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