Se procurarmos a definição de 'família' no dicionário, uma das acepções mais comuns é "Conjunto de pessoas que vivem sob o mesmo teto". Enquanto a razão tenta explicar, a emoção desconfia: será que é só isso? Definitivamente, não. Podemos encontrar classificações mais fiéis à grandeza do que a família é e pode ser em muitos lugares: a literatura é um deles. É onde podemos olhar o assunto de longe, na pele de outros como nós, e viver as suas dúvidas como se fossem as nossas próprias.

E quando o assunto é composição familiar, o tema "adoção" é um dos mais sensíveis e delicados de tratar com os pequenos. Pensando nisso, o Catraquinha fez um apanhado de histórias que desconstroem o conceito tradicional de "família" - afinal, que importa quem é quem se o gostar é o que une? - e nos lembram que o afeto ainda é o denominador comum de todas elas, importando pouco ou quase nada os vínculos genéticos.

1. "É proibido falar disso", George Schlesinger e Bruna Assis Brasil (Companhia das Letrinhas)

O tabu em torno do assunto aparece no próprio título do livro, e é vencido aos poucos pela protagonista da história.

Créditos: Divulgação

O tabu em torno do assunto aparece no próprio título do livro, e é vencido aos poucos pela protagonista da história.

O título deste livro indica os tabus que muitas vezes cercam o tema. A narrativa gira em torno da pequena Ruth, de seis anos, que vive querendo saber sobre a história da irmã adotiva e recebe dos pais silêncio e mistério. Então, com a ajuda do amigo Dudi, ela consegue ultrapassar o muro colocado entre ela e o tema da adoção, e entender que a história da irmã em sua família original marcou a sua própria história de uma forma que ela nunca poderia esperar. Uma narrativa de aventura, imaginação solta e

2. "O irmão que veio de longe", Moacyr Scliar e Cárcamo (Companhia das Letrinhas)

E se um dia um grupo de três irmãos descobre que tem um irmão desconhecido vivendo no meio da floresta amazônica? E se a mãe deles decide, do dia para a noite, acolher o pequeno - que acabou de tornar orfão de pai e mãe -, em casa? É em torno dessa reviravolta que poderia ser um grande tabu na vida das crianças que gira este livro. O pai das crianças, Carlos, era indigenista e morre de forma precoce, deixando o filho Carlinhos, um pequeno índio que teve anos atrás com uma índia amazonense. O livro traz não só a tema sensível da adoção e seus desdobramentos, mas também as diferenças culturais e o valor da tolerância no acolhimento do novo - seja ela uma situação, uma descoberta ou uma pessoa que chega.

3. "Flavia e o bolo de chocolate", Miriam Leitão e Bruna Assis Brasil (Editora Rocco)

A família da personagem enfrente o preconceito não só por conta da adoção.

Créditos: Reprodução/Bruna Assis Brasil

A família da personagem enfrente o preconceito não só por conta da adoção.

Escrito pela jornalista Miriam Leitão, o livro apresenta os dilemas da pequena Flavia sobre o por que de sua pele ser marrão e tão diferente da pele branca da mãe. Na história, a questão da adoção aparece junto a outro tema de importância crucial: a diversidade racial. Como sensibilizar a pequena Clara sobre as diferenças e como elas podem unir as pessoas? Com sensibilidade, as ilustrações de Bruna Assis Brasil guiam o leitor por uma jornada de autoaceitação e descoberta do amor.

4. "Então você chegou... e a família ficou completa!", Anette Hildebrandt e Almud Kunert (Companhia das Letrinhas)

Publicado no Brasil em 2006, este livro traz a história de Lisa, uma menina que adora desenhar e jogar memória com a mãe. Porém, sua brincadeira favorita de verdade é ouvir a sua própria história. É no fim do dia, quando os pais já terminaram suas obrigações, a luz está baixa e todos podem se reunir para ouvir, mais uma vez, a história de como Lisa chegou à família. Mais do que uma narrativa sobre adoção, o livro traz, com sensibilidade e cuidado, uma fábula sobre o poder do afeto.

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5. "Aos Olhos do Mar", Cristiane Tavares e Chris Mazzotta (Editora MOV Palavras)

Uma narrativa poética que trabalha o assunto no campo do simbólico e da linguagem poética.

Créditos: Reprodução/MOV Palavras

Uma narrativa poética que trabalha o assunto no campo do simbólico e da linguagem poética.

Misto de autobiografia e ficção, "Aos olhos do mar", de Cristiane Tavares propõe uma narrativa poética minada de simbologias e linguagem metafórica. Na história, duas aldeias são separadas pelo mar, "de Cá" e "de Lá": uma é habita só por crianças e outra só por adultos. Então, depois de uma forte tempestade agitar tudo, um encontro inesperado acontece. As ilustrações, com uma proposta semelhante à da ilusão de ótica, sugerem ao leitor os limites borrados entre um lado e outro, e o tema da adoção aparece de forma sutil, em meio a esse universo, mostrando que misturar o conhecido e o desconhecido às vezes é essencial para entender (e sentir) as coisas.

6. "Ganhei uma menina" - Tereza Yamashita e Luiz Bras (Editora Scipione)

A configuração da família desse livro é tão diferente que o cachorro Quiuí tem um casal de estimação, o Pedro e a Paula. Até que um dia, a família resolve crescer e o cãozinho ganha um presente inesperado, Érica, uma menina muito esperta. Com um texto e ilustrações bem-humoradas, o livro provoca a pensar: quem decide afinal quem é quem em uma família? O rumo da história leva o leitor a refletir sobre identidade e a complexidade das relações humanas.

7. "Drufs", Eva Furnari (editora Moderna)

Filhos adotivos, emprestados, temporários. Tudo isso é possível na história que Eva Furnari criou para dizer de um jeito divertido que família é aquilo é que tudo igual e diferente ao mesmo tempo.

Créditos: Divulgação

Filhos adotivos, emprestados, temporários. Tudo isso é possível na história que Eva Furnari criou para dizer de um jeito divertido que família é aquilo é que tudo igual e diferente ao mesmo tempo.

A escritora e ilustradora Eva Furnari é um dos maiores nomes da literatura feita para crianças no Brasil, e o reconhecimento não é à toa. Eva é criadora de alguns dos personagens que mais marcaram época desconstruindo estereótipos, como a bruxinha Zelda. Em seu livro mais recente, não seria diferente. "Drufs" é uma grande brincadeira com o que se entende hoje em dia por "família". Aqui, os pequenos são apresentados às mais diferentes composições familiares, e para desviar do didatismo que o assunto pode inspirar, a autora usa o humor. "Os Drufs são seres parecidos com a gente, só que menores", ela brinca, já com o intuito de despertar a empatia e o reconhecimento nos pequenos leitores.

Aqui, são as próprias crianças que contam como são suas famílias: Família Padoca, Família Ui, Família Gorrinho. O que será que elas têm de comum e diferente? “Minha família tem três pessoas, contando eu e descontando meu pai, que já morreu. No ano que vem vai ter quatro pessoas de novo, porque a minha prima do interior vem morar com a gente", diz o trecho que conta como são as coisas na Família Zum. Um livro para desconstruir ideias prontas e lembrar que a diferente é o denominador comum daqueles que decidem viver juntos.

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