Um brinquedo da marca You & Me Mommy, do Canadá, gerou uma onda de desconforto nas redes sociais nos últimos dias. O motivo? Um boneco comercializado por eles com rosto de bebê e pênis. Ou seja, é uma boneca, aparentemente igual a todas as outras, com trejeitos e feições de um bebê, mas representada anatomicamente como sendo do sexo masculino. Na maioria dos países, bonecas são produzidas sem os orgãos genitais.

A foto publicada no Facebook da empresa foi retirada do ar após as reações de indignação dos usuários. Muitos consideraram o brinquedo "inapropriado" e "desnecessário". Do outro lado, as pessoas favoráveis à ideia alegaram que a boneca pode ser um caminho possível e criativo para discutir a questão de gênero com os pequenos.

Porém, o caso desperta uma série de reflexões: afinal, o que há de mal em uma boneca declarada como menino? É nocivo para as crianças conhecer o formato de um órgão sexual? Será que "omitir" a genitália de um brinquedo infantil é uma abordagem eficaz quando se trata de saúde e sexualidade?

O Catraquinha convidou a neuropsicóloga Ana Carolina Del Nero, da equipe do Ambulatório de Transexualidade e Orientação de Gênero (AMTIGOS) da USP para falar sobre isso.

Ana Carolina trabalha diretamente com crianças que vivenciam disforias de gênero, ou seja, que não se identificam com seu sexo biológico de nascimento. Para ela, apresentar a uma criança uma boneca anatomicamente correta e realista não oferece nenhum efeito negativo, muito pelo contrário, educa e estimula o autoconhecimento, protegendo a criança em diversas situações, incluindo dores nas partes íntimas e abuso sexual.

Créditos: Reprodução/You & Me Mommy

A boneca causou polêmica entre pais consumidores da marca, e a reacende a discussão sobre gênero e sexualidade na infância.

"A descoberta das diferenças entre os sexos ocorre muito precocemente na vida da criança, por volta dos três anos, e marca a primeira grande distinção entre os indivíduos. Por causa disso, é um alicerce fundamental na construção da identidade e da noção de Eu", explica.

Do ponto de vista da psicologia, é a negação da identidade sexual que pode ser ruim para o desenvolvimento da sexualidade dos pequenos. Mesmo que a iniciação sexual seja algo mais tardio, é durante a primeira infância que a as crianças começam a se familiarizar com seu sexo biológico, por isso, quanto mais naturalidade houver em relação a isso, melhor.

"A negação das diferenças entre meninos e meninas acarreta sérios prejuízos ao desenvolvimento psíquico da criança. Como adultos, ao reconhecermos e nomearmos as diferenças entre os sexos, possibilitamos à criança que reconheça e nomeie seu corpo e a si mesma", pondera a psicóloga.


  • Dia 18 de maio é o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Um relatório da Childhood Brasil sobre violência sexual na infância publicado em setembro de 2016 revela que, entre 2012 e 2015, foram registrados mais de 157 mil casos de violência sexual (que engloba tanto a exploração quanto o abuso) de crianças e adolescentes. Isso significa que, a cada uma hora, há pelo menos 4 casos de uma criança ou adolescente sexualmente violentada no Brasil. Daí a importância de manter um diálogo franco e aberto sobre o assunto, incentivando as crianças a não terem vergonha de falar sobre seu corpo e o que acontece com ele.  Clique aqui para ler a matéria completa do Catraquinha sobre o tema.

A profissional explica também que há também outro aspecto interessante que deve ser considerado em relação à referida boneca com pênis: a distinção de gênero. Afinal, se as meninas crescerem pensando que só podem brincar de boneca, por outro lado, os meninos também serão estigmatizados se tiverem interesse pelo brinquedo, o que é limitante e traumático para a criança.

"Trazer uma característica física tão marcadamente associada ao universo masculino a um brinquedo mais tipicamente associado ao universo feminino pode cumprir a função de quebrar alguns estereótipos de gênero. Assim, longe de causar um trauma, um boneco com pênis pode ser uma oportunidade de abertura para um diálogo sobre temas difíceis, porém importantes, como conhecimento do próprio corpo, questões de gênero e sexualidade infantil", ressalta Ana Carolina.

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Renata Penzani é jornalista, repórter do Catraquinha, pesquisadora do livro para a infância e autora do site Garimpo Miúdo.

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