“A narrativa nos aproxima daquilo que conhecemos. E essa necessidade de aproximação faz de nós todos narradores e ouvintes”.

A afirmação é da escritora Marina Colasanti, um dos grandes nomes da literatura contemporânea – indicada em 2016 para o Prêmio Hans Christian Andersen, considerado um dos maiores reconhecimentos do meio.

Mas entre tantas opções de livros infantis, como escolher? Idade importa? Existem temas “proibidos”? Quem escolhe, e como escolhe? Para ajudar os pais, professores e quem mais quiser dar livros à domicílio de presente para os pequenos com todas essas dúvidas, estão aí os serviços de assinatura de livros infantis. É uma espécie de sistema delivery em que o assinante recebe em casa uma curadoria de livros geralmente divididos por nível de leitura, considerando se a criança já sabe ler, se faz leituras compartilhadas ou se aquela será sua primeira experiência com a leitura.

No Brasil, depois de fazer história nos anos 70 e 80, com o famoso Círculo do Livro, os clubes do livro voltaram com força total nos últimos anos. A notícia reforça a valorização do livro e amplia as possibilidades de conhecer mais e mais autores e editoras. Porém, como saber quais são as alternativas confiáveis, que realmente se propõem a respeitar e explorar os potenciais da criança como leitora e usufruidora ativa da literatura como arte, e não como mero consumidor? Quem são, afinal, os grandes garimpadores de livro?

Como funciona?

Há particularidades em cada serviço oferecido, mas geralmente acontece assim: a pessoa escolhe o tipo de plano que quer aderir, seleciona o nível de leitura da criança que vai receber, e passa a receber em sua casa um livro (ou um kit, a depender do plano escolhido e do serviço selecionado) mensalmente. Alguns projetos exploram envios temáticos, e cada mês trabalham assuntos pré-determinados.

Mas, em todos, há um denominador comum: a chegada do livro é sempre uma surpresa absoluta. É como ficar do lado de cá de um menu desconhecido, aderir a um cardápio no escuro. A cada mês, é um sabor novo oferecido, e o leitor só consegue saber seu nome no momento em que já está experimentando. Então, conhecer quem está do lado de lá, fazendo as escolhas e misturando os sabores, é fundamental.

O Catraquinha listou cinco desses serviços para facilitar a vida de quem vai escolher qual. Todos podem parecer iguais, mas muitas particularidades os diferenciam, desde o preço dos pacotes até a a escolha por privilegiar literatura nacional ou estrangeira, além do fato de que muitas são independentes e, portanto, variam as obras, e outras são projetos ligados a editoras, o que restringe a seleção ao catálogo da casa.

Para Denise Guilherme, fundadora d ‘A Taba, a formação de leitura das crianças, muitas vezes, é uma história de reconciliação e descoberta dos pais com os livros. “Ao incentivar os filhos a ler, muitos adultos se encantam e redescobrem o prazer da leitura”.


  • Por que ler?

Com os livros – e nos livros – as crianças apreendem o sentido do mundo, conhecem realidades que o cotidiano tantas vezes esconde, naturalizam assuntos que a família e a escola tantas vezes omitem. É um movimento saudável de ocupar o seu lugar no mundo, reconhecer diversidades e afirmar identidades.

Como diria o pesquisador Federico Ivanier, no artigo “O adulto no mundo da LIJ”, é a ideia de que, por meio da ficção, as crianças podem enfrentar e resolver qualquer coisa sem a ajuda de nós, os adultos. "Que façam isso. Não vai acontecer nada de errado se imaginarem que não precisam de nós”, diz.

Para ele, “a boa literatura costuma não ser inócua, ou se ajustar a ideais preconcebidos, mas ao contrário. Geralmente, nos coloca em lugares pouco confortáveis, costuma propor uma reflexão sobre o mundo desde alguém frágil, costuma mostrar o que nós não gostamos de ver”.


1. A Taba

Depois de anos trabalhando com projetos de formação de leitura, a mestre em Educação Denise Guilherme resolveu expandir sua paixão pelos livros para uma missão diferente: aproximar adultos e crianças por meio de boas experiências de leitura. Denise chama o resultado desse encontro de “triângulo amoroso” entre adultos, crianças e livros.

Assim nasceu A Taba, uma empresa especializada em curadoria de livros infantis, com foco na formação de leitores, que visa preencher uma lacuna infelizmente latente no Brasil, a escassez de bibliotecas públicas e livrarias com acervos atualizados, de qualidade e conectados com as evoluções do livro para a infância.

Créditos: Divulgação/SM/Pulo do Gato

"Quero Colo", de Stela Barbieri, e "Além da Montanha", de Renato Moriconi, são alguns dos livros enviados pela A Taba.

“Muitas pessoas têm interesse em livros, acham leitura importante mas, têm dificuldade em escolher ou mesmo em acessar bons títulos. Há poucas livrarias e bibliotecas no país e, os profissionais que estão nestes espaços nem sempre têm uma boa formação para mediar esse encontro entre os livros e os leitores”.

Afinada com o que se produz de melhor qualidade para o público infantil e fugindo de conteúdos moralistas, didatizantes ou estereotipados, A Taba oferece quatro opções de pacotes, de acordo com o nível de leitura da criança: Bebê, Leitor iniciante, Leitor autônomo e Leitor experiente.

Com os dois pés fincados no potencial do livro como linguagem artística, Denise explica que sua seleção passa longe de querer ensinar alguma coisa à criança, trata-se de despertar olhares e interesses. “A leitura em casa, diferentemente da leitura na escola, deve estar muito mais associada à possibilidade de compartilhar um momento em família, do que à necessidade de se ensinar a ler mais e melhor”, explica.

Créditos: Arquivo pessoal/Divulgação A Taba

Denise Guilherme, idealizadora d' A Taba, e o catálogo para escolas disponível para download gratuito.

“Na família, a leitura deve possibilitar a construção de um triângulo amoroso entre adultos, crianças e os livros. Sem obrigação, sem  necessidade de cumprir metas ou de responder a perguntas sobre a obra. Apenas pelo prazer de estar junto e compartilhar uma experiência de leitura agradável. Muitos pais idealizam um determinado momento para criar um espaço na rotina dedicado à leitura. Isso é bom, mas cada família deve encontrar o seu formato. De manhã, antes de ir para escola, depois do almoço, antes de dormir. O horário não importa. Fundamental é que os adultos estejam disponíveis para experimentar esse momento com presença, junto com seus filhos”.

Outro ponto importante nessa seleção é o ritmo de leitura: enquanto o próximo não chega, a família e a criança podem aproveitar o livro em todos os seus aspectos. Apreender a história, perceber o que ela comunica, explorar a materialidade do objeto e descobrir as intenções do autor. Ou seja: não se trata de bombardear a criança com informações, e sim de estimular a observação atenta e interessada de uma obra específica. “Não precisam ser muitos. Mas, precisam ser livros de qualidade”, ressalta.

"É fundamental: os pais precisam ser leitores também. As crianças aprendem muito mais pelo exemplo do que pelo discurso."

Além de curadoria, A Taba faz também conteúdos, agenda sobre encontros de livro e catálogos para auxiliar os educadores a selecionar os livros que serão trabalhados na escola - clique aqui para saber mais.

2. Garimpo Clube do Livro

Criado pelo empresário Gustavo Barbeito, o Garimpo Clube do Livro seleciona livros para adultos e crianças. O diferencial do serviço são os chamados clubes temáticos: Infantil, Ficção, Poesia, Amor & Humor, Negócios e Leia Mulheres, com o objetivo de estimular a promoção da literatura produzida por mulheres. O núcleo infantil é dividido em três faixas etárias: de quatro a seis anos, de sete a oito, e de nove a onze.

Segundo a jornalista e editora Elisa Menezes, responsável pela curadoria do clube Infantil, há um cuidado grande com a qualidade não só literária mas também gráfica e artística dos livros selecionados. “É uma linha curatorial que procura fugir dos best-sellers e levar ao leitor livros que talvez ele nunca conheceria, abrindo espaço para editoras independentes e de pequeno porte. Como curadora dos clubes infantis, privilegio obras de excelência gráfica, com conteúdos visuais e textuais ricos”, explica.

Créditos: Divulgação/Garimpo de Livros

Entre as obras selecionadas pelo Garimpo de Livros, está "Hoje", de Eva Montanari, publicado pela editora Jujuba.

Sobre o papel do livro no desenvolvimento da criança, ela pontua o valor de descoberta do outro e de si mesmo que as histórias simbolizam, e destaca o papel fundamental dos pais e de toda a família nesse processo:

“Acho fundamental o papel da família na formação do leitor. Crescer em um ambiente com livros, vendo o exemplo de familiares que leem, é crescer próximo à leitura, é enxergar o livro como algo natural. Nesse sentido, a leitura estimulada e compartilhada representa um passo além. Livros passam a ser associados a um momento prazeroso, de aconchego, de descoberta, de estar junto com pais, irmãos, avós”, defende.

“Acredito que todos, adultos e crianças, saem mais sábios dessa experiência. Não se trata apenas de aprender a ler, de ampliar vocabulário. Trata-se de desenvolver a capacidade interpretativa, o senso crítico, de entender a personalidade de cada um, de refletir sobre temas e sentimentos, de aproximar laços”, defende Elisa.

Apesar dos níveis de leitura nortearem a escolha das obras, o Garimpo acredita que um bom livro tem o poder de transcender as questões etárias e alcançar a sensibilidade do leitor de todas as idades.

“É aquela velha história: livro não tem idade. A relação com a leitura pode começar ainda na barriga da mãe, e quando um livro é bom seu alcance é ilimitado. Espero que, além de mediadores, os adultos sejam também leitores, compartilhando opiniões e encantamento", conclui.

3. Quindim

Idealizado por Volnei Canônica, ex-coordenador do DLLLB (Diretora do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas) do Ministério da Cultura e por Renata Nakano, o clube de leitura Quindim nasceu em 2016, já com um público cativo: os mais de 300 assinantes do extinto serviço de assinaturas Boox.

Batizado em homenagem ao rinoceronte Quindim, das histórias do Sitio do Pica-pau Amarelo, o clube surgiu com o objetivo de ser uma ação sustentável a longo prazo, que contribua na superação das dificuldades de construir um Brasil leitor, como a distribuição deficitária de livros, que faz com que algumas regiões do país não tenham acesso, e a falta de tempo dos pais para conhecer e selecionar bons livros para os filhos, o que por si só já um reflexo da carência de uma formação continuada de leitores.

Créditos:

As obras selecionadas do Quindim para o mês de julho foram "Um passarinho me contou", de Jorge Miguel Marinho e Flávio Pessoa, e "Tom" de André Neves.

Um dos grandes diferenciais do Quindim é a equipe de curadores, que conta com alguns dos principais autores, ilustradores e pesquisadores de literatura infantojuvenil da atualidade. Nomes como Roger Mello, (Prêmio Hans Christian Andersen 2014), Ziraldo, Marina Colasanti, Marisa Lajolo e Ricardo Azevedo, além de estrelas de outros universos, como a cantora Adriana Calcanhoto e o dramaturgo Walcyr Carrasco.

Outro ponto que diferencia o Quindim é o Diário do Leitor. Depois de escolher o pacote de acordo com a faixa etária da criança - de zero a 12 anos -, a pessoa recebe, junto com os livros, guia de leitura com dicas pedagógicas indicando caminhos possíveis para explorar as possibilidades do livro.

Com o Diário do Leitor, que é um material exclusivo do clube, o adulto e a criança podem registrar a experiência daquela leitura, e acompanhar o desenvolvimento.

Quantos aos critérios de curadoria, os selecionadores buscam literatura de qualidade, de preferência brasileira, para incentivar a criança a valorizar cultura brasileira e a produção nacional. "Eles procuram também diversificar as editoras, para darmos oportunidade também às pequenas, preocupadas em desenvolver um trabalho de qualidade e transgressor. Mas principalmente, buscam livros que desenvolvam a empatia e a imaginação e promovam o conhecimento, como só a grande literatura é capaz", explica o texto de descrição no site do Quindim.

Em um esforço de cumprir um papel social de ampliar o acesso aos livros de qualidade, o Quindim destina 10% do lucro obtido com as assinaturas para subsidiar o Centro de Leitura Quindim, que realiza ações de formação e promoção de leitura no Brasil e no mundo, alinhando uma forte cadeia de agentes e projetos em bibliotecas públicas e comunitárias, escolas, hospitais, praças e parques.

Clique aqui para conhecer melhor o projeto, e acompanhe a página no Facebook.

4. Expresso Letrinhas

Ao contrário dos anteriores, O Expresso Letrinhas não é um clube de leitura independente, e sim um projeto da Companhia das Letrinhas, selo infantil da Companhia das Letras. Todos os livros selecionados pelo clube são do catálogo da editora, que é de grande qualidade e apuro estético e de conteúdo. A seleção fica por conta de uma equipe de editores da casa.

Um dos diferenciais do Expresso Letrinhas é que, ao invés de um livro selecionado a cada envio, são dois. Um deles é sempre um clássico da literatura infantil, acreditando no potencial da ficção de transcender os gêneros. "Clássicos são para todos -inclusive para adultos - e podem fazer parte de qualquer biblioteca.

Créditos: Divulgação/Companhia das Letrinhas

O clássico infantil "A árvore generosa", de Shel Silverstein, está no catálogo da Companhia das Letrinhas.

Já o segundo, aí sim, é escolhido de acordo com a faixa etária, e dividido em três categorias:

  • Expresso A: 0 a 6 anos — livros que podem ser desfrutados por pais e filhos, através da leitura compartilhada, e que trazem temas que falam do universo daqueles que estão começando a conhecer o mundo.
  • Expresso B: 7 a 9 anos livros que funcionam com a leitura compartilhada, mas que também podem ser lidos de forma autônoma por aqueles que já dominam a escrita. As histórias são mais desenvolvidas e o leque de temas se amplia um pouco.
  • Expresso C: 10 a 12 anos livros para crianças alfabetizadas, que já criaram um grande repertório de experiências e dominam o ambiente ao redor.

"A leitura pode levar aos mais diversos lugares. Com apenas um livro nas mãos, é possível explorar as estradas da nossa própria memória, as cordilheiras de emoções que dificilmente acessamos no dia a dia, conhecer tempos passados e futuros, visitar países distantes, desvendar o fundo do mar ou até mesmo o espaço", defende o Expresso Letrinhas.

5. Brinque-Book

O clube de assinaturas da Brinque-Book é mais um exemplo de serviço vinculado a uma editora. Os assinantes escolhem uma entre as duas categorias de faixa etária e recebem livros do catálogo da Brinque-Book, que possui clássicos contemporâneos infantis premiados, como "Até as princesas soltam pum", de Ilan Brenman, e "Entre Nuvens", de André Neves.

De 1 a 3 anos

Quanto antes a criança tiver contato com livros, maior a chance de ela tomar gosto pela literatura. Isso acontece especialmente por meio do vínculo emocional entre um adulto e um bebê quando “leem” juntos. No plano Primeiras Palavras, o assinante recebe dois livros ilustrados por mês, que vão permitir que as crianças explorem e nomeiem o mundo ao redor.

De 4 a 7 anos

Dois livros por mês com muitas imagens e enredos curtos para leitores iniciantes. Histórias que estimulam a imaginação e estreitam laços quando lidas pelos adultos para as crianças; ou de maneira independente quando a criança já avançou os primeiros passos da alfabetização

É possível escolher o plano trimestral, semestral ou anual. E, ao contrário dos demais clubes mencionados aqui, no da Brinque, é possível escolher quais títulos deseja receber. No site do serviço, o leitor tem acesso ao catálogo completo e seleciona até seis títulos que deseja receber em sua casa, com frete gratuito. Clique aqui para saber mais.

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Renata Penzani é jornalista, repórter do Catraquinha, pesquisadora do livro para a infância e autora do site Garimpo Miúdo.

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