“As crianças são altivas, desdenhosas, iradas, invejosas, curiosas, interessadas, preguiçosas, volúveis, tímidas, intemperantes, mentirosas, dissimuladas; riem e choram facilmente; têm alegrias imoderadas e aflições amargas sobre assuntos mínimos; já são homens" 

O que a citação acima, do pensador francês Jean de La Bruyère, tem a ver com o ideal de infância que estamos propagando enquanto sociedade? Por que estamos constantemente em busca dessa criança ideal, obediente, concentrada e disciplinada? Estamos verdadeiramente educando para formar sujeitos plenos e conscientes de suas individualidades? De onde vêm as chamadas "doenças pós-modernas", como hiperatividade, ansiedade, transtorno obsessivo compulsivo, dislexia e porque o número de crianças com esses diagnósticos é cada vez maior? São muitas as interrogações.

Para provocar a pensar sobre essas questões, a Fapes  - Educação Integral vai promover a primeira edição do curso de pós-graduação "Da palmatória à Ritalina - Especialização em Desconstrução de Diagnósticos para a Desmedicalização da Infância". Com carga horária de 380 horas e duração de dois anos, o curso tem início previsto para 15 de agosto, e vai contar com professores convidados de diversas áreas de atuação - Psicologia, Pedagogia, Psicanálise, Pediatria, Psiquiatria, Sociologia, Filosofia, entre outras.

  • "Desmedicalização": o que isso quer dizer? Por trás do nome que parece complicado, a proposta é refletir até que ponto a educação que oferecemos às crianças - frequentemente pautada no desempenho e no excesso de informações - impactou o surgimento de transtornos que até há pouco tempo atrás não existiam. "Há um silencioso genocídio à infância que precisa ser combatido", diz o texto de descrição do curso.

"Aquilo que é visto como indisciplina, desobediência ou dificuldade de concentração, é na verdade fruto da falta de diálogo da instituição escolar com aquilo que tem mais significado para formação da subjetividade destas crianças, seus interesses e desejos mais profundos."

Para repercutir essa reflexão tão ampla e que abre espaço para tantos questionamentos, tabus e contradições da sociedade de consumo, o Catraquinha conversou com Denis Plapler, docente do curso, Presidente da Associação Brasileira de Cientistas para Desconstrução de Diagnósticos e Desmedicalização (AbCd) e coordenador do curso de Gestão Pedagógica para a Educação Democrática no Instituto Singularidades.

Afinal, a discussão é ampla e as particularidades são muitas. Não se trata de negar o uso de medicações quando elas são necessárias, e sim de propor uma reflexão maior: quando elas são necessárias? E por que? Para cada criança, o ideal é que exista um observador atento - seja um médico, pedagogo ou a família - para perceber suas reais necessidades e eventuais limitações.

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Segundo o especialista, o processo de urbanização contribuiu para uma cultura de confinamento do qual as crianças são vítimas. Assim, os momentos ao ar livre são cada vez mais raros.

Para Denis, falta aos profissionais de saúde conhecimento sobre pedagogia e uma disposição sensível de perceber as reais necessidades da criança. Por outro lado, os educadores e professores também não têm conhecimento suficiente para combater os diagnósticos recebidos. O que fazer para resolver esse impasse? Unir as duas áreas de atuação.

Catraquinha - Qual o público-alvo do curso, profissionais de que áreas de atuação? E quantas vagas são?

Denis Plapler - Neste curso, trabalhamos com turmas de vinte estudantes apenas, pois a proposta exige diálogo, aprofundamento e acompanhamento adequado do grupo. Como se trata de um curso de Pós-Graduação Lato Sensu, é direcionado a profissionais já graduados, com interesse em atuar profissionalmente na interface das áreas da Saúde e da Educação.

Catraquinha - Por que é preciso desmedicalizar a infância?

Denis Plapler - Para responder à sua pergunta é necessário se perguntar por que é necessário medicalizar a infância, não é mesmo? Estamos produzindo agora uma pesquisa que será publicada em breve, “Da Palmatória à Ritalina: Um estudo de caso sobre como a escola que adoece as crianças”. É preciso olhar para História para compreender como se deu este processo de medicalização da infância. Esta forma de educar crianças dentro de instituições, sentadas em carteiras e fileiras, separadas por idades, espaços, disciplinas e notas é uma forma extremamente rígida e datada, ela tem início com a Revolução Industrial, quando o Estado passa a retirar as pessoas de suas comunidades para que trabalhem nas fábricas enquanto seus filhos passam a ir para às escolas para aprender a língua do país colonizador. Ainda hoje em vários países destes continentes, crianças que falam seus idiomas nativos são reprovadas para que aprendam um idioma estrangeiro.

Enquanto profissionais da educação muitas vezes não demonstram conhecimento suficiente para combater o diagnóstico médico, profissionais da saúde demonstram pouco conhecimento sobre pedagogia e consequentemente sobre as próprias crianças diagnosticadas, ignoram a realidade escolar e não a questionam. A escola industrial é naturalizada e as crianças que não se adaptam a ela são tratadas como doentes. Este processo de escolarização é inerente a um processo de colonização, e agora, no limite, proponente a este processo de medicalização da infância e da vida. Antes as crianças que reagiam apanhavam, eram punidas com a palmatória, com puxão de orelha, tapinha, ou até ajoelhando no milho.

Agora, os “desobedientes”, “desatentos” ou “desconcentrados”, aqueles que insistem em resistir e rejeitar esta escola como a forma natural de aprender e viver o mundo, são envenenados com o cloridrato de metifenidato, substância presente em medicamentos como Concerta e Ritalina.

Olhando para nossos índices de desigualdade social, taxa de homicídios, de analfabetismo, de evasão escolar, de reincidência criminal, degradação ambiental, parece óbvio que as crianças rejeitem um sistema que as educa para isto. O discurso da obediência, da disciplina, da concentração é enfiado literalmente goela abaixo das crianças. Acompanho casos colaterais graves, crianças com depressão, perda da criatividade, problemas de saúde e até tentativa de suicídio.

É preciso desmedicalizar a infância para que as crianças não deixem de sentir o que sentem, para que elas cresçam em contato consigo mesmas, para que possam se autoconhecer. Aprendemos o mundo através dos sentidos, impedir as crianças de sentir o que sentem é extremamente danoso para seu aprendizado e para constituição de sua subjetividade.

É preciso que a sociedade se questione sobre o que faz com que crianças precisem consumir uma droga para que aceitem a educação que lhes é ofertada nas escolas públicas e privadas. No século XXI, escutar os estudantes, permitir que estudem aquilo que lhes interessa, ainda é algo extremamente inovador na grande maioria das escolas, mas não em todas. Cresce o número de escolas públicas e privadas que já atuam de forma diferente ou que enxergam a necessidade de serem repensadas.

As escolas precisam aprofundar seu discurso pedagógico, precisam aprender com outras experiências que há muitos anos já existem aqui no Brasil e no exterior e que apresentam maneiras muito mais saudáveis de se educar, tornando a escola um centro de convivência comunitário de fato, um polo de fomento a cultura local, um espaço realmente vivo.

Espaços de escuta e de voz são espaços de saúde, espaços de desconstrução de ordens opressoras transgeracionais que se dissolvem quando há oportunidade de diálogo verdadeiro, de reconhecimento do outro e de si mesmo. A educação precisa estar centrada nas relações pessoais, não no professor, nem na criança, mas nas relações, criança-criança, criança-adulto, adulto-criança, adulto-adulto (a mais difícil talvez).

É preciso compreender o ser de forma integral, com seus aspectos fisiológicos, emocionais e sociais, não podemos ignorar nenhuma destas dimensões muito menos o fato de que elas são completamente indissociáveis. A mente, o cérebro e a cultura estão o tempo todo dialogando, exercendo e sofrendo influência um sobre o outro, a todo momento, como vias de mão dupla. O ser não pode ser concebido por uma única perspectiva.

É preciso aprofundar o discurso pedagógico para perceber que as crianças não têm dificuldade de prestar atenção, simplesmente elas não estão interessadas naquilo, estão prestando atenção em outra coisa, em algo que é mais importante para elas naquele exato momento, assim também é com os adultos. Crianças não são hiperativas, são crianças, estão vivas e possuem energia vital, precisam que respeitem seu tempo, seu espaço, que lhe permitam gradualmente e sob todos cuidados necessários, experimentar a vida.

Catraquinha - Pode dar um exemplo do que é um diagnóstico fraudulento? TDAH e Dislexia, por exemplo, seriam criações da medicina pós-moderna?

Denis Plapler - Estes diagnósticos não possuem fundamento científico, não compreendem o ser de modo integral, não compreendem que o cérebro é uma massa de modelar da cultura, como escreveu o Neurologista e Psiquiatra Boris Cyrulnik. Estes diagnósticos funcionam como profecias auto-realizadoras, como escreveu o psiquiatra e psicanalista Pichon Rivière: de tanto serem reproduzidos transformam-se em verdades. São diagnósticos que fazem com que estas crianças cresçam com sua identidade vinculada a uma patologia, mas elas não possuem nenhuma doença, estão aprendendo e precisam ter seu tempo e suas demandas respeitadas.

Catraquinha - Como a medicina "tradicional" encara os movimentos de desmedicalização?

Denis Plapler - Acredito que eu não seja a melhor pessoa para responder a esta pergunta, pois não sou médico, muito menos tradicional. Entretanto, qualquer médico que se leve a sério, que tenha estudado minimante o funcionamento do ser humano e de como ele aprende, não vai dar a uma criança um atestado de Déficit de Atenção, Hiperatividade, Transtorno Desafiador Opositor, Dislexia, dentre outros absurdos que possam vir a ser criados sem fundamento científico.

É preciso cuidado ao tratar de temas como o conceito de "tradicional". Há um conhecimento milenar presente em comunidades de culturas tradicionais. A Medicina que acompanha os avanços da ciência, que compreende o conhecimento e o mundo de forma sistêmica, holística, complexa, esta medicina caminha junto ao movimento de Desmedicalização. As próprias universidades de medicina estão passando a enxergar a necessidade de deixar de ensinar a doença para passar a aprender o que é de fato saúde.

A medicina e a escola convencional são irmãs gêmeas, ambas nascem de uma concepção de mundo e de ciência que é cartesiana, que segmenta o conhecimento e o ser. Assim como a escola ao separar a Biologia da Quimica está separando os seres vivos de seus elementos constituintes, ao separar a História da Geografia está separando o tempo do espaço, a medicina ocidental enxerga o ser de forma segmentada e reconhece isto nos efeitos colaterais de seus tratamentos.

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É preciso desmedicalizar a infância para que as crianças não deixem de sentir o que sentem, para que elas cresçam em contato consigo mesmas, para que possam se autoconhecer.

Entretanto, já existe inclusive grande adesão e trabalhos científicos importantes realizados aqui mesmo no Brasil. Universidades como a USP - Universidade de São Paulo, UNB - Universidade de Brasil, UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro e UNICAMP - Universidade de Campinas, já desenvolvem pesquisas que combatem estes diagnósticos de aprendizagem há muitos anos, afinal somos o segundo maior consumidor desta droga no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, como podemos ver há mesmo quem gosta de servir o modelo norte-americano. Pesquisa realizada pela própria UERJ revelou o aumento de 775% no consumo desta droga ao longo dos últimos dez anos, quando passou a ser autorizado o seu consumo para crianças.

Para enfrentar este problema e lutar para que as crianças tenham o direito a desfrutar da vida de modo consciente criamos uma plataforma que reúne cientistas alinhados a esta perspectiva. No site onde estamos formando uma rede de profissionais e escolas aptos a acolher estas crianças e jovens sem esta perspectiva patológica. Oferecemos também formação para que estas experiências inspirem outras a se modificar. Já existem também outras organizações importantes que atuam nesta linha, como o NAAPA - Núcleo de Apoio e Acompanhamento para Aprendizagem, o Fórum Sobre Medicalização da Educação e da Saúde, este curso da FAPES Educação Integral, dentre outras.

Catraquinha - Qual a relação da hipermedicalicação com a sociedade do consumo e da informação?

Denis Plapler - Na coleção do Departamento de Formação em Psicanálise, do SEDES Sapientiae, há uma boa discussão em um livro intitulado "Medicação ou Medicalização", diferenciando já estes dois conceitos. Tomar um comprimido para sua dor de cabeça em um dia que não conseguiu se alimentar bem, ou que não dormiu as horas de sono necessárias, é diferente de procurar uma droga como solução para um problema sem compreender suas causas. De modo geral e conciso medicalização passa a ser o termo utilizado quando o ato de medicar passa a se tornar um hábito, uma cultura.

Vivemos em uma sociedade que nos expõe a todo o tempo a uma quantidade enorme de produtos, um sistema que transforma a própria informação em mercadoria, rápido, superficial e descartável.

A produção de lixo cresce cinco vezes mais que o crescimento populacional, ou seja, estamos consumindo e degradando cada vez mais. Estes estudantes medicados reagem a um sistema de educação industrial que já na infância pretende fazer deles um produto, não pessoas, um processo de reificação, social e mental, as escolas convencionais educam para que sejam apáticos politicamente e produtivos economicamente para um sistema econômico perverso e em colapso, que quando consome muito, degrada o planeta e quando consome pouco se encontra em crise. É preciso enxergar as crises como processos de mudança, crises são berros sociais, gritos sufocados por gerações, vozes pedindo mudança.

Catraquinha - Estamos transmitindo às crianças 'vícios' do mundo adulto, como ansiedade e a cobrança por produtividade? Pode falar um pouco sobre isso, e como o curso se posiciona diante dessa realidade?

Denis Plapler - O adulto transmite à criança tudo aquilo que ele é, não basta falar uma coisa e não agir com coerência, a criança capta, apreende. Estas crianças respondem ao mundo em que estão sendo inseridas, resistem pois não se adaptam, naturalmente, já que é um sistema que não respeita a natureza da criança.

O próprio contato com a natureza tem sido algo cada vez mais raro. O processo de colonização é inerente a um processo de urbanização, que vem criando uma cultura de confinamento, fortalecendo relações de vigilância e punição contínua. Qualificar a educação pública não é tarefa apenas das escolas, é preciso qualificar os espaços públicos para que não sejam espaços do medo, mas de vida, de produção de cultura.

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Crianças não são hiperativas, são crianças, estão vivas e possuem energia vital, só precisam que respeitem seu tempo, seu espaço.

Catraquinha - Crianças precisam de tempo e espaço. Adultos têm cada vez menos tempo e espaço. Isso significa que somos todos vítimas de um mesmo sistema pautado na geração de capital. Como resolver esse impasse na educação das crianças?

Denis Plapler - A gestão do tempo e do espaço é um desafio para todos nós ao longo de toda nossa vida. A maneira como cada um pretende se inserir no mundo, a contribuição que pretende oferecer, o papel social que desempenha, são questões que fazem parte deste fundamental exercício de consciência e de autoconhecimento para que possamos decidir a cada instante ao que nos dedicar. Assim, todos somos ao mesmo tempo vítimas e sujeitos do sistema, a cada ato estamos hora resistindo, transformando, hora contribuindo para que ele se fortaleça.

Catraquinha - Como seria a infância ideal?

Denis Plapler - Precisamos ser pragmáticos. O ideal seria solucionar os problemas que enfrentamos hoje. Não podemos nos habituar a conviver com pessoas passando fome, morando na rua por falta de opção, crianças abandonadas, com uma taxa média de 150 homicídios diários no Brasil, degradação ambiental, enfim, os problemas são muitos e as reformas impostas pelo atual governo parece que vem para piorar este cenário.

Acredito que precisamos de mais mobilização e participação popular para que os reais interesses da população sejam atendidos. Uma vez que pagamos nossos impostos, devemos ter o direito a serviços públicos qualificados, educação básica e universitária, saúde, moradia, transporte, acesso à internet (que hoje representa acesso a conhecimento). Para isso, é preciso investir em soluções que enxerguem o coletivo e que não sigam deteriorando o público em favor do privado. Se pensamos de fato a educação de forma inclusiva, ninguém pode ficar de fora.

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Renata Penzani é jornalista, repórter do Catraquinha, pesquisadora do livro para a infância e autora do site Garimpo Miúdo.

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