Todos os anos nascem cerca de três milhões de bebês no Brasil, envolvendo quase seis milhões de pessoas, ou seja, as mães e seus filhos ou filhas. A maioria (98%) destes nascimentos acontecem em estabelecimentos hospitalares sejam públicos ou privados.

Nascer em um hospital significa ter acesso a várias tecnologias que tornam o nascimento mais seguro para mãe e filho. De fato, os avanços da obstetrícia contribuíram com a melhoria dos indicadores de morbidade e mortalidade materna e perinatais em todo o mundo. Entretanto, sabemos que as mulheres e recém-nascidos são expostos a altas taxas de intervenções desnecessárias, como a episiotomia e o uso indiscriminado de ocitocina.

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Para a OMS, taxa ideal de cesáreas seria de 10% a 15% dos partos em um país.

Uma pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo em 2010, evidenciou que 25% das mulheres relatam ter sofrido violência obstétrica. De acordo com o documento Diretrizes para o Parto Normal (vale a pena ler) publicado pelo Ministério da Saúde este ano, as mulheres em trabalho de parto devem ser tratadas com respeito, ter acesso às informações baseadas em evidências e serem incluídas na tomada de decisões. Para isso, os profissionais que as atendem devem estabelecer uma relação de confiança com as mulheres e seus acompanhantes, perguntando-lhes sobre seus desejos e expectativas. Médicos e enfermeiras devem estar conscientes da importância de sua atitude, do tom de voz e das próprias palavras usadas.

Inspiração

Na contramão deste movimento de epidemia de cesárea, estão nascendo ações para diminuir o número de parto cirúrgicos. O projeto Parto Adequado, desenvolvido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o Hospital Israelita Albert Einstein e o Institute for Healthcare Improvement (IHI), com o apoio do Ministério da Saúde, tem o objetivo de identificar modelos inovadores e viáveis de atenção ao parto e nascimento, que valorizem o parto normal e reduzam o percentual de cesarianas desnecessárias na saúde suplementar.

No Albert Einstein, a taxa de partos normais girava em torno 26% e, com as ações do projeto, que incluem formação continuada de profissionais, a taxa está em torno de 45 % e a meta é chegar de 50% de 65% de partos vaginais. Outra ação com este objetivo é a implantação do “PPP - pré parto, parto e puerpério”. “Neste modelo, a mulher fica no mesmo quarto durante o trabalho de parto, o parto e recebe os cuidados pós-parto”, explicou ao Catraquinha Rômulo Negrini, ginecologista obstetra, coordenador da maternidade do Einstein.

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Assegurar o contato pele a pele do recém-nascido com a mãe imediatamente após seu nascimento é umas recomendações do Ministério da Saúde.

“É um local onde a mulher passa o trabalho de parto, ganha o bebê e recebe os cuidados pós-parto, sem precisar ser transportada pelo hospital em cada fase. E aí você consegue colocar naquele local tudo o que é necessário para a boa evolução do trabalho de parto e para o apoio à gestante para o parto natural”, completa. Este quarto também favorece o contato da mãe pele a pele com o bebê logo após o nascimento, favorecendo a amamentação na primeira hora de vida.

Negrini elencou alguns itens presentes no PPP e que são necessários para que todo trabalho de parto evolua de maneira tranquila: “O ambiente ideal é aquele que está mais próximo da casa da gestante e que ela tenha liberdade para se movimentar, ouvir a música que ela quer. Não pode ser inseguro ou hostil, precisa ser um ambiente aconchegante”, recomenda. "Todas essas atitudes podem fazer com que mude essa cultura no Brasil e que se realizem cada vez mais partos normais. A partir do momento que os obstetras começam a fazer mais partos normais, e as gestantes passar a cobrar este direito, isso vai obrigar os hospitais a oferecerem esta estrutura para atender as mulheres".

Confira a lista

  • Liberdade movimento

As mulheres devem ser encorajadas a se movimentarem e adotarem as posições que lhes sejam mais confortáveis no trabalho de parto. As barras nas paredes também podem ajudar neste processo, pois as mulheres podem se apoiar ao caminhar. Os profissionais devem mostrar à mulher e aos seus acompanhantes como ajudar e assegurar-lhe que ela o pode fazer em qualquer momento e quantas vezes quiser, incluindo as posições de cócoras, lateral ou quatro apoios.

  • Alívio da dor

A gestante precisa ter acesso a métodos de alívio da dor, incluindo os não farmacológicos (banheira, chuveiro, massagens). A água morna relaxa o corpo e ameniza a dor das contrações. Ter um chuveiro ou banheira disponível no ambiente de parto garante conforto em todas as fases do trabalho de parto e a imersão em banheira é reconhecida como uma das mais efetivas medidas não farmacológicas de alívio da dor.

  • Ambiente tranquilo e seguro

Criar uma atmosfera calma e livre de incômodos, favorece a evolução do trabalho de parto, pois há menor liberação de adrenalina, hormônio que diminui o ritmo das contrações. As mulheres devem ter acompanhante de sua escolha durante o trabalho de parto e parto, não invalidando a presença da doula.  Os profissionais devem bater na porta do quarto ou enfermaria e esperar antes de entrar.

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Os profissionais devem respeitar o quarto como espaço pessoal da mulher.

  • Acessórios

A banqueta de parto e a bola de pilates podem auxiliar o posicionamento e proporcionar apoio para a gestante em diferentes posições.

  • Música ambiente

A mulheres devem devem ser livres para escolher o som ambiente que tocará na sala. Com a música, ela pode para descontrair e relaxar.

  • Alimentação

Mulheres em trabalho de parto podem ingerir uma dieta leve e também ingerir líquidos, de preferência soluções isotônicas ao invés de somente água.

Einstein e Catraquinha

O Hospital Israelita Albert Einstein está junto com o Catraquinha até o final deste ano para falar sobre temas que fazem parte da vida de mães, pais e cuidadores: saúde da criança, saúde da gestante, parto e amamentação.

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