A OMS -  Organização Mundial da Saúde orienta que o bebê se alimente apenas de leite materno até os seis meses de idade. Depois dessa idade, aconselha-se que, além do leite, ofereçamos os alimentos sólidos e que a amamentação siga até os dois anos de idade. Seguir essa orientações dependem muito da organização, contexto e condições de cada mãe. Considerando que a licença maternidade no Brasil é de quatro meses e muitas mães passam o dia fora de casa trabalhando, impossibilitada de amamentar, a chance da mãe não conseguir prosseguir com o aleitamento por muito mais tempo é muito grande.

Acontece que, muitas vezes, os bebês desmamam antes da mãe necessariamente estar pronta para este momento. Para entender como passar por esta fase sem traumas, conversamos Lorena Oliveira, enfermeira e consultora em aleitamento materno.

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Amamentar pode ser um grande desafio

Lorena, que é autora do Blog da Lo, diz que o desmame é uma fase da vida de novos aprendizados. "Assim como nós mães vamos aprendendo a lidar com as dependências físicas e emocionais dos filhos, também aprendemos a ver esse momento de 'separação' em relação ao processo de aleitamento materno por parte do bebê como um novo passo da criança à vida".

Se o seu bebê desmamou sem que você tenha instituído isso na rotina de vocês, ótimo! O desmame natural é sinal de que o seu filho está preparado fisicamente e emocionalmente para tal e isso deve ser comemorado como o início de uma nova fase para o seu pequeno e para você, mãe, que se dedicou tanto.

Confira a entrevista completa

  • Catraquinha: Muitas vezes, os bebês desmamam antes da mãe necessariamente estar pronta para este momento. Como a mãe pode lidar com estes conflitos internos ?

Lorena Oliveira: Durante a amamentação é estabelecido e fortalecido o vínculo afetivo, e ali floresce um amor singular entre mãe e bebê fazendo deste instante um momento único e exclusivo entre mãe e filho. Muitas vezes, essa é a parte do dia que as mães mais gostam, alimentar seus filhos, porque vislumbram um período de troca inexplicável de sentimentos que só podem ser sentidos quando estão conectados durante o aleitamento materno.

Por isso, várias mães não se sentem prontas para desmamar o seu bebê, pois deixar de vivenciar toda essa troca de amor e carinho com a amamentação de um dia para o outro não é fácil e pode gerar conflitos internos. Mas, é a partir daí que devemos lembrar que quando o bebê naturalmente deixa o peito, é sinal de que ele já se sente satisfeito e independente para demandar da mãe outras ações que não sejam supridas por meio do seio materno, como um abraço, um colo, ou mesmo brincar.

  • Catraquinha: Mesmo que seja uma decisão também da mãe, muitas mulheres não lidam bem com o encerramento deste ciclo. O que elas podem fazer?

Lorena Oliveira: O encerramento deste ciclo não é fácil, exatamente por ser um momento exclusivamente entre mãe e filho. Mas, um dia irá chegar o período, em que mãe e filho participarão do processo de desmame, e ele deve ser visto como algo positivo, tanto para o bebê que a partir de então iniciará novos caminhos, quanto para a mãe que se sentirá realizada por saber que ofertou ao seu pequeno o melhor alimento que existe, além de muito aconchego e acolhimento.

É imprescindível que as mães comecem a suprir essa falta da amamentação, que se torna parte da rotina de ambos, com novas ações. É importante ela saber que continuará dando colo, dando amor, beijo, abraço, aconchego e alimento sem dar o peito, e todas as necessidades físicas e emocionais da criança serão preenchidas de uma forma tão quão especial quando lhe era ofertado o seio materno.

O desmame implica o fim da necessidade de sucção da criança nutritiva e não nutritiva, ou seja, tanto do peito como alimento como suporte emocional.

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O desmame implica o fim da necessidade de sucção da criança nutritiva e não nutritiva, ou seja, tanto do peito como alimento como suporte emocional.

  • Catraquinha: Como a mãe pode lidar com a falta que sente de amamentar?

Lorena Oliveira: Em algum momento após o desmame as mães irão sentir falta de amamentar os seus filhos, é normal sentir saudades. E para suprir essa falta, o ideal é aproximar-se da criança de outra forma, fazendo com que essa 'outra maneira' seja também um momento singular entre vocês. Pegue-o no colo, conte uma historinha na hora de dormir, dê a comida, assista ao lado dele o seu desenho preferido, e reinvente novos momentos. Novos caminhos, novas necessidades físicas e emocionais, novas “criações”.

  • Catraquinha: Muitas mães acham que estão perdendo uma ligação especial que tem com o bebê. O que dizer para esta mãe?

Lorena Oliveira: A ligação especial entre mãe e bebê sempre existirá, a amamentação é apenas o início de uma vida inteira de vínculo afetivo, companheirismo, cumplicidade e amor. Amamentar é sem dúvidas um momento lindo e único entre mãe e filho e estabelece uma relação recíproca de carinho, algo que é apenas destinado ao binômio. Contudo, novas descobertas virão com o passar do tempo, e com o crescimento e desenvolvimento do bebê outras necessidades existirão e para elas serem preenchidas à mamãe sempre estará em primeiro lugar e será o seu porto-seguro.

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Jornalista, editora do Catraquinha e mãe do Joaquim, de quatro anos.

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