Há poucos dias, aqui no Catraquinha, falamos sobre o papel da dramaturgia no acesso à informação. Levantamos essa discussão a partir de um parto retratado na novela da Rede Globo, "O Outro Lado do Paraíso", onde uma série de violências obstétricas foram naturalizadas.

Nesta segunda e terça-feiras, infelizmente, vimos outra questão entrar em cena. A história é a seguinte: um personagem da trama se envolve com uma garota de programa, não quer nada com ela além do sexo mas, depois de alguns meses, ela aparece assumindo a gravidez e a paternidade do rapaz.

Créditos: Reprodução/Gshow

Uma semana depois, a novela O Outro Lado do Paraíso cometeu uma nova gafe ao tratar de um tema importante: a amamentação.

Em meio a todo esse caos, família inteira no quarto do hospital, o médico então faz uma visita e diz à puérpera: “você não tem leite suficiente, vamos precisar suplementar”. Evidências científicas apontam para uma sequencia de erros – primeiro porque, quando uma mulher dá à luz, primeiro ela produz o colostro, que não é propriamente o leite.

Segundo porque, dizer que o leite materno é fraco ou insuficiente é um mito. O leite produzido pela mãe vai sempre atender todas as necessidades daquela criança – não só em termos nutricionais, como em relação a anticorpos e ainda no aspecto emocional. O leite da mãe é completo.

Nos primeiros dias de vida, o colostro é suficiente para alimentar o recém-nascido. Passados algum tempo, que pode variar para cada mulher, acontece a apojadura, que é a descida do leite.

Voltando à novela: O médico continua, e sugere que a moça peça ajuda a uma outra paciente (a mesma da violência obstétrica) que, segundo ele, produz bastante leite. Ou seja, que a outra puérpera amamente o bebê da colega.

Nesse caso, falamos de uma questão ainda mais séria – a amamentação cruzada (quando uma mulher amamenta o filho de outra mãe). Essa é uma prática formalmente contraindicada pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), porque expõe o bebê a diversos riscos, como a transmissão de doenças infectocontagiosas (HIV é uma delas).

Nas cenas que seguem, a personagem Suzy, a doadora, ainda diz: “toda mulher que tem leite tem que doar – ou para um banco de leite ou para uma conhecida”. Na verdade, quando uma mulher produz bastante leite, ela pode sim procurar por um BLH (Banco de Leite Humano) mas não amamentar um bebê de outra mulher.

Créditos: Reprodução/Gshow

Na cena, o médico informa à puérpera que o leite dela "não é suficiente".

“Além da Aids, se a mãe que amamenta o filho de outra tiver com hepatite B, por exemplo, também pode passar a doença para a criança por meio do leite materno ou pelo contato com sangue na presença de lesões mamilares” – explicou Giovanna Balogh em publicação de hoje, também em relação às cenas da novela.

Neste caso, é importante também destacar que, embora a mulher pareça estar bem de saúde, ela pode, ainda assim, ser portadora de alguma doença ou fazer uso de algum medicamento contraindicado na amamentação.

Além do que já dissemos a respeito dos riscos da amamentação cruzada, um leite de outra mãe não tem também os anticorpos e nutrientes que o bebê necessita. Cada mulher produz um leite, específico para atender às necessidades do próprio filho. Parece mágico, mas é a natureza sábia.

O leite, quando doado ao BLH, é pasteurizado antes de ser oferecido a outros bebês. Assim, não existe qualquer risco de contaminação.

Créditos: Reprodução/Gshow

A novela gerou polêmica ao fazer apologia à amamentação cruzada, prática formalmente contraindicada pela OMS e pelo Ministério da Saúde.

É importante sempre se questionar e buscar informação em outros canais que não só a tv, o cinema ou as redes sociais – conhecer as recomendações da Organização Mundial da Saúde ou do Ministério da Saúde, por exemplo, podem te ajudar.

Caso você tenha dificuldade para amamentar ou conheça uma mulher que tenha, procure ajuda – ou do pediatra, ou de uma consultora de amamentação. Já se você deseja ajudar outros bebês, doando seu leite, procure um Banco de Leite Humano (mais abaixo vamos explicar como).

O objetivo desta matéria não é ditar regras. As informações que trouxemos aqui não são MI-MI-MI ou exagero. Nós temos um compromisso com a informação e um compromisso também com a empatia, acolhimento e sororidade.

  • Como doar leite da maneira CORRETA

A diferença fundamental do leite do Banco de Leite Humano (BLH) para o leite doado diretamente por uma outra mãe é que no BLH o leite é tratado, pasteurizado e, por isso, isento de qualquer possibilidade de transmissão de doenças. Uma mulher não deve amamentar outra criança que não seja o seu filho – a amamentação cruzada é contraindicada pelo Ministério da Saúde e pela OMS.

De acordo com a legislação RDC Nº 171, as mulheres que desejam doar precisam estar saudáveis, atendendo alguns requisitos:

• Não fumar
• Não usar álcool ou drogas ilícitas
• Não tomar medicamentos incompatíveis com a amamentação
• Apresentar exames do pré ou do pós-natal comprovando estar bem de saúde

Atende esses requisitos? Quer saber onde tem um Banco perto de você? Clique aqui ou acesse o site Doe Leite Materno e consulte.

Em São Paulo, desde 2012, existe um programa de Coleta de Leite Humano Domiciliar, que conta com uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU-SP) com o slogan “Doar Leite Materno Salva Vidas”. O serviço funciona de segunda à sexta-feira, das 7h às 18h.

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O leite recebido pelos Bancos de Leite Humano é pasteurizado, evitando assim qualquer risco de contaminação.

Para doar, é preciso ainda tomar alguns cuidados para evitar que haja contaminação. Clique aqui e conheça o passo a passo para a coleta adequada.

  • Posicionamento  Sociedade Brasileira de Pediatria

Com toda repercussão das cenas, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) resolveu se manifestar, e divulgou a nota, que você confere abaixo na íntegra:

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) vem a público para prestar esclarecimentos referentes à informação transmitida pela TV Globo, no capítulo do dia 27/03/2018 de sua novela “O outro lado do Paraíso”, quando recomenda a “amamentação cruzada” (uma mulher amamenta o filho de outra mulher).

Tendo em vista o bem-estar e saúde da população, a SBP ressalta que a amamentação cruzada é contraindicada pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pois oferece risco de transmissão de doenças infectocontagiosas, como o HIV/AIDS, sobretudo para as crianças.

Por outro lado, os pediatras esclarecem que uma criança pode, sim, receber leite de outra mulher. No entanto, esse leite deve ser oriundo de doação a um banco de leite humano, onde recebe tratamento que o deixa livre de qualquer possibilidade de transmissão de doenças.

A SBP reitera ainda que, ao contrário do que foi sugerido na novela, não existe leite materno “fraco”. É importante destacar que a amamentação deve ser estimulada, pois é o único processo natural que garante acesso ao alimento completo e mais adequado para as crianças. Por isso, deve ser oferecido, de modo exclusivo, nos seis primeiros meses, podendo ser complementado a partir de então.

Para repassar orientações adequadas, a SBP mantém em seu site uma página com dicas importantes (http://www.sbp.com.br/index.php?id=494). Assim, considerando suas vantagens para a criança, a mulher e a saúde em geral, toda a população deve dar suporte para as mães que amamentam e os pediatras devem ser valorizados pelo seu papel fundamental ao orientar sobre o tema.

Diante desse contexto, a SBP reforça o risco de divulgar em grande escala uma prática não recomendável, como é a amamentação cruzada. Os pediatras pedem, assim, que todos os veículos de comunicação, em especial a emissora responsável pela novela onde as cenas foram exibidas, ajudem a disseminar de forma correta as vantagens o aleitamento junto aos brasileiros, o que traz inúmeros benefícios às futuras gerações.

Rio de Janeiro, 28 de março de 2018.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA (SBP)

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