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É preciso retomar o protagonismo da mulher no parto

"Estamos sujeitas a procedimentos e protocolos simplesmente porque o parto natural é uma ameaça ao lucro", diz a obstetriz Ana Cristina Duarte.

13/06/2017 10:27 | Atualizado: 22/06/2017 17:14

por Renata Penzani

"Vamos deixar o bebê. E entregá-lo, por alguns momentos, à mãe, depois de ele ter provado as alegrias da solidão, da imobilidade. Deitado sobre o peito querido, orelha contra coração, o bebê reencontra o som e o ritmo familiar. Tudo está feito. Tudo é perfeito. Esses dois seres que lutaram corajosamente, transformam-se num só."

O trechinho acima faz parte do livro "Nascer Sorrindo", do obstetra francês Frederick Leboyer, e representa um momento que deveria ser absolutamente comum: a humanização do nascimento. O modelo de parto que predomina no Brasil ainda é de práticas invasivas e de que não são recomendadas pelo Ministério da Saúde: uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência durante o parto no Brasil, segundo a pesquisa "Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado", divulgada em 2010 pela Fundação Perseu Abramo.

Para entender os porquês disso e propor caminhos de retomada de um nascer mais humano e saudável, é preciso falar sobre o protagonismo da mulher no parto - ou, melhor dizendo, sobre a falta dele.

Créditos: iStock

Discutir os rumos da assistência ao parto é falar sobre a fundamental retomada do protagonismo da mulher.

Em parceria com o Unicef - Fundo das Nações Unidas para a Infância - , o Catraquinha vem produzindo uma série de conteúdos para disseminar a proposta da campanha Quem espera espera. Para esta matéria, conversamos com a obstetriz Ana Cristina Duarte, coordenadora do GAMA - Grupo de Apoio à Maternidade Ativa.

Antes do respeito às escolhas da mulher, vem o direito ao acesso à escolha

Segundo a OMS - Organização Mundial de Saúde - , o Brasil é o segundo país do mundo que mais faz cesáreas (56%), atrás apenas da República Dominicana, (58%) e compartilhando estatísticas com países mais pobres, como Equador (41%) e Colômbia (46%). A taxa recomendada pela OMS para o total de nascidos é de 15%.

Apesar disso, há sinais de retomada. Em março deste ano, o Ministério da Saúde revelou uma estabilização no número de cesarianas realizadas na rede pública e privada de saúde. Isso significa que, desde 2010, é a primeira vez que este índice não cresce.


  • Por que 15%? A cada 100 bebês que nascem, 15 podem nascer por meio de cesárea. Essa é a orientação da OMS. Mas de onde vem esse número? Segundo a organização, não há evidências de redução de mortalidade no parto em índices maiores do que este. Ou seja, o parto é um movimento espontâneo e natural do corpo, que só deve ser cirúrgico quando houver risco real para a gestante ou o bebê. Tudo o que foge disso é excesso e deve ser feito com a devida consciência dos possíveis riscos.

É possível, sim, questionar o que dizem os médicos

Ana Cristina explica que não importa onde o parto acontece, e sim como ele acontece. Por isso, durante toda a gestação até o momento do parto, é importante que a mulher esteja bem informada sobre tudo aquilo que ela pode e deve perguntar, duvidar e querer fazer de outro jeito. Segundo ela, a manutenção das incertezas e do medo é uma das principais ferramentas para tornar a mulher dependente dos mandos e desmandos da assistência obstétrica.

"É fundamental que as mulheres entendam que o obstetra, a enfermeira, a parteira, a doula e toda a equipe médica são antes de tudo prestadores de serviço. A mulher é uma cliente, e como tal tem direito a informações e escolhas. Não deixamos nosso carro para consertar em qualquer lugar, e frequentemente questionamos a visão daquele profissional. Mas quando se trata da gestação, temos uma facilidade muito grande de deixar de lado esses questionamentos, tendendo a ver o médico como o portador da verdade absoluta. Ele sabe tudo e a mãe não sabe nada. Essa relação precisa mudar. Não pode ser uma relação de poder onde um sabe mais do que o outro, e sim de parceria e troca de informações. As mulheres devem poder fazer as suas escolhas junto a equipes que as respeitem", explica a Ana Cristina, que é também coordenadora do Siaparto (Simpósio Internacional de Assistência ao Parto) e autora do livro "Parto Normal ou Cesárea? O que toda mulher deve saber (e todo homem também)".

Confira a entrevista na íntegra:

Catraquinha - O protagonismo da mulher começa muito antes do parto, durante toda a gestação. Pode comentar sobre a importância de tomar parte ativa em todo o processo para evitar intervenções desnecessárias?

Ana Cristina Duarte - A assistência ao parto no Brasil passa por uma crise tremenda. Estamos desatualizados com a taxa de cesáreas que é a maior do mundo. Por isso, é muito importante que as mulheres se informem durante a gestação, e entendam que tipo de assistência elas estão comprando com aquela determinada equipe. E principalmente entender que tipo de escolha é essa. Tudo isso tem que ser feito durante a gestação.

Catraquinha - Em que momento o parto passou a ser medicalizado e deixou de ser um evento fisiológico protagonizado apenas pela mulher?

Ana Cristina Duarte - A medicalização do parto aconteceu mais intensamente no final do século passado, se intensificando a partir de década de 50, quando as parteiras - tanto as profissionais quanto as leigas - foram aos poucos sendo substituídas por médicos. O parto natural fisiológico sem intervenções praticamente deixou de acontecer, com exceção de populações ribeirinhas e indígenas. Hoje, em dia, pouca gente conhece a fisiologia de um parto realmente natural.

Créditos: Kalu Gonçalves/Vila Mamífera

O contato pele a pele da mãe com o bebê nos primeiros instantes de vida é fundamental para estabelecer as bases emocionais que ele vai levar para a vida toda.

Catraquinha - Qual é o limite entre o protagonismo da mulher e a saúde do bebê?

Ana Cristina Duarte - Não existe um limite. Não é uma equação exata. Tudo o que falamos sobre gravidez e parto diz respeito a taxas de risco, probabilidades de acontecer, mas dificilmente é uma linha reta. Quem vai lidar com as consequências das escolhas do parto é a própria mulher - já que nenhuma equipe médica vai ficar do lado dela durante a criação do bebê -, as escolhas têm que ser dela. Com boas ou más escolhas, é a mãe quem vai estar do lado daquela criança pela vida toda.

Não adianta querer impor à mulher o que ela deve fazer. É ela quem precisa conhecer as estatísticas, os riscos as probabilidades, fazer sua escolha e depois conviver com as consequências boas e ruins dessas escolhas.

Catraquinha - É muito comum ouvir relatos de mulheres que recorreram a escolhas de parto que não seriam as suas por recomendação médica que não necessariamente eram a única opção viável. Por que o discurso entre um médico e outro é tão discrepante?

Ana Cristina Duarte - A discrepância entre as falas dos médicos - um falando sobre o risco de circular de cordão e outro falando que isso não tem significado na assistência ao parto - tem a ver com o fato de que a Medicina muitas vezes não é baseada em evidências científicas: muitos médicos repetem discursos que aprenderam na faculdade. Ainda temos uma tradição oral muito presente na transmissão da Medicina. No Brasil principalmente, ainda temos uma obstetrícia muito opinativa.

Catraquinha - De que forma os interesses econômicos do sistema de saúde influenciam nessa falta de protagonismo?

Ana Cristina Duarte - A medicina no Brasil é dividida entre pública e privada. O principal foco da medicina privada é o lucro, inevitavelmente. E mesmo a pública muitas vezes é terceirizada para Organizações Sociais (OS) que acabam passando também para a lógica do lucro.

Eticamente, é complicado separar  o que está baseado no lucro e o que está fundamentado na assistência ao paciente. A mulher, no fim das contas, é cliente desse serviço, e por isso não recebe informações isentas de viés, e na saúde privada o lucro é o principal viés. O empoderamento feminino passa pela consciência do quanto estamos sujeitas a procedimentos e protocolos simplesmente por ameaçar o lucro.

Créditos: iStock

Além da mulher, o bebê que nasce também é um sujeito de direitos, e deve ser tratado com respeito, cuidado e delicadeza.

Catraquinha - Para além dos conhecimentos científicos/técnicos, podemos dizer que há um despreparo emocional e humano por parte de algumas equipes médicas? Como você vê essa questão?

Ana Cristina Duarte - As equipes multiprofissionais que trabalham na assistência ao parto geralmente estão trabalhando sob pressão e muitas vezes mal preparadas. Os cursos de medicina e enfermagem não preparam para as questões emocionais. Essa falta de condições mínimas de trabalho impacta o dia a dia das equipes e influencia diretamente na forma como as mulheres são tratadas. 

Catraquinha - E quanto ao protagonismo do bebê no parto, como ele é percebido e incentivado? Afinal, é ele quem nasce e inaugura sua participação neste mundo. Pode falar um pouco sobre isso?

 Ana Cristina Duarte - O bebê, enquanto está dentro da barriga da mulher, é integralmente dependente. Durante a gestação, ele não tem tanta participação quanto se imaginava antes, é um esforço bastante fisiológico da mulher, depende das forças do útero e da pressão que ele faz para empurrar o bebê para baixo. Tanto é que, quando temos um óbito fetal, por exemplo, o parto acontece exatamente do mesmo jeito que aconteceria com o bebê vivo, porque realmente é um esforço da mulher.

No entanto, quando ele sai da barriga, ele já é uma pessoa separada de sua mãe, no sentido de poder de vida. Nesse momento, ele já passa a ser um sujeito de direitos, que merece respeito, cuidado e delicadeza. São essas primeiras sensações do que é o mundo que ele vai levar para a vida toda. Um bebê que nasce saudável não deve ser separado de sua mãe na hora do nascimento, com o cordão umbilical intacto, em um esforço de manter o máximo possível o vínculo afetivo e o que queremos transmitir a ele sobre o mundo aqui fora. Esse é o conceito do parto humanizado.

Quem espera, espera

 Catraquinha e Unicef estão juntos para falar sobre a importância da primeira infância para o desenvolvimento infantil. Neste canal, compartilharemos uma série de conteúdos com esse foco, começando por matérias relacionadas ao parto, no gancho da campanha "Quem espera, espera", lançada pelo Unicef com o objetivo de sensibilizar e conscientizar sobre a importância do nascimento acontecer após o trabalho de parto começar.

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